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Na Curva do Arco-Íris - Cyro Martins  E-mail
Estante do Autor - Ficção


 

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- E quando todos foram embora? -Dona Honorina sentiu-se de repente doze anos atrás. E como sempre sói acontecer nessas ocasiões, repetiu o chavão: como passa o tempo! Mas ela tinha suas defesas. Por isso, quando as som bras do anoitecer vieram de mansinho e começou a soprar a aragem vinda do rio Uruguai, dona Honorina acendeu a sua lâmpada perto da cadeira de balanço, foi à estante à procura de um daqueles livros proibidos que antes mantinha escondidos no baú, sentou-se com o volume na mão e ficou uns bons momentos pensando nas ordens que mandaria já no outro dia para o seu capataz da estância de Uruguaiana comunicando-lhe que, daquela data em diante, o seu patrão se chamava Rufino Delgado, Dom Rufino, seu genro.

- E naquela noite, depois que silenciaram todas as vozes e apagaram todas as luzes, o mayordomo visitou pela primeira vez sua senhorial patrona, ali, na intimidade atapetada daquela alcova de marquesa. Honorina soluçava baixinho, sentindo-se muito s6 e já maginando que dias futuros a esperavam. A chegada inesperada de Dom Antonio Arias, porque não supunha fosse ele capaz daquele gesto tão ousado, a surpreendeu e fez com que aquela velha cama fofa e dourada revivesse num galopão de muita sem-cerimônia.

- Eu sempre digo: não há como ser autor para saber de tudo!

- Mas a senhora não sabia desse acontecimento?

- Mas me alegro muito por tomar conhecimento dele agora, ainda que tão tarde! Dona Honorina bem que o merecia. Atê me dá um alívio, como se de repente me caísse um embrulho pesado das mãos que eu vinha carregando sem saber desde aquele fundão de tempo.

- Remorso, dona Candinha? -E dai, quem sabe!? -Mas remorso pesa? -Nas almas sensíveis, pesa. -Ah, e a senhora é alma!

- Uma entre infinitas, senhor autor, dançando no ar, perpetuamente. Que ilusão, a dos jazigos perpétuos! O dono das almas não é Deus, é o vento. O vento sempre me seduziu. O vento da campanha, do pampa. O vento norte enrolando as macegas, eu guria descabelada correndo contra o vento... E o minuano zunindo nos oitões, então! Tarde da noite. A gente às vezes se encolhia de medo. Digo a gente guria. O minuano espichava o mundo. Naque- Ia grandeza as almas esvoaçavam como aves cegas. -A senhora é poeta, dona Candinha. Sabia?

- Isso que chamo de alma é apenas um eco daqueles tempos fluidos de sonhos em que eu passava horas e horas lendo e relendo e declamando Juana de Ibarbourou, Alfonsina Storni, José Antonio Silva, Amado Nervo, Evaristo Carriego e por aí afora. Enfim, ! saudades, suspiros... Sem nenhuma pose. Pose pra quê? Pra quem? Para o senhor, o meu autor? Ora, teria graça! O senhor me deixa dizer apenas um poeminha de Juana, que parece um barquinho à vela solitário na limpeza do rio?

- Eu não tenho nada que deixar ou não deixar, a senhora é dona de si mesma.

- Sempre pensei que a personagem precisava pedir licença para o autor pra dizer ou fazer certas coisas.

- Como autor, eu me envergonharia se isso acontecesse. Um escritor que se preza não comete uma arbitrariedade dessas. Trazer personagens de rédea curta, só um Machado de Assis se permite. Acontece que o velho era muito dono e senhor da arte de romancear. Os menores temos que nos guiar pelo tino das figuras que lançamos no papel. Mas estou me excedendo, diga lâ os versos de Juana de Ibarbourou, Juana de Amêrica, como a chamavam no apogeu da sua glória.

- O poeminha se intitula "Mayo": "No sé qué fragancia de azahares / hoy tiene el agua deI mar. / Será este Mayo de oro, / esta cimera solar, / o este viento de palomas / que anda sin sentirse \ andar? / Si é1 estuviera a mi lado, / oh! Dios, qué felicidad! "

- Obrigado, dona Cândida, a senhora se fez eco duma saudade que também é minha. Esses versos são como murmúrios entrando nos vãos das horas. Só não me lem bro bem do significado de "azahares ".

- Chama-se "azahar" o aroma da flor da laranjeira e do limoeiro.

- Agora o verso ficou mais bonito ainda. E não posso deixar de pensar que a senhora, quando jovem, seria um escândalo na barca de Caronte, como Juana!

- Que belos pensamentos tem o senhor a meu respeito!

- É que a senhora cada vez mais se impõe à minha admiração. A senhora se importaria muito se eu dissesse que a sua... não sei como dizer... mas digamos... com alguma vacilação, ê verdade, ...digamos a sua "figura" me faz lembrar uma pétala errante, já machucada, certo, duma rosa de França, como diria Juana de Ibarbourou.

- Não passo duma espécie de arabesco deslizando sobre o pedregulho deste quintal. Um arabesco invisível, c claro, porque alma não faz sombra. O senhor pode olhar de binóculo aí de cima, não vai deslindar o enigma desta voz que sobe como uma súplica, expressando os sentimentos da sua longa espera.

- Acho que a senhora se engana, sua voz não me soa como súplica. Um pouco amarga, isso sim. Será característica dos "seres" incorpóreos?

- Sou impalpável, porém sinto que flutuo no ar. E me espanto! E por falar em espanto, me lembrei agora que citei errado o nome dum poeta muito amado. Refiro-me a José Asunción Silva e não José Antonio Silva. É o autor dos famosos "Nocturnos".

- Se bem me lembro, nesse poema ele faz referência a "Ias sombras de las almas", o que não está muito distante da senhora e da nossa conversa, tão esfiapada.

- Os meus dias de repente se desfolharam!

- Por onde anda a senhora, dona Candinha? Neste flagrante a perdi de vista.

- Me despenquei no tempo, uma asa de luz me deslumbrou a vista, mas essa operação durou um fiapo de segundo. E sabe o senhor o que eu vi nesse mergulho relâmpago? Vi Marcelina se espreguiçando na larga cama do grande hotel de Montevidéu onde gozam suas núpcias. E também vi e acompanhei Rufino beijá-la e lhe dizer que não pretendia demorar, iria somente ao banco retirar um passe que o encarregado de seus negócios lhe fizera de Rivera. Ignorava a quanto montaria a importância, mas não seria pouco, daria certamente para mais algumas extravagâncias. E lá se foi ele, mui gajo. No banco encontrou a quantia, de respeito, realmente.

- E a senhora sabe a procedência desse dinheiro?

- Isso quem sabe é o senhor. Eu conheço os fatos, o que aconteceu, o que ele fez .

- Aquele dinheiro provinha da última pontinha de gado que lhe sobrava. Rufino, ao desembarcar no casamento rico, queimara os navios.

- Retirou o dinheiro, alguns miles de pesos, e não voltou para o hotel, como prometera. Rufino tinha uma atração irresistível pelas putas. Com o maior cinismo, procurou um prostíbulo.

- Em plena lua de mel! Ao que leva certos indivíduos o prazer de se achincalhar! Com uma mulher daquelas, explodindo de vigor e beleza!

- Marcelina era muito viva, mas o seu encanto pela vida nova sobrepunha-se a qualquer desconfiança. Quando Rufmo voltou, ela já estava se preparando para o jantar e em seguida a ópera. Ele a abraçou e beijou, explicando-lhe que se demorara na casa de armas.

- Casa de armas?

- Então o senhor não sabe?

- Ah, sim; era aficionado ao tiro ao alvo. Nos últimos meses, enquanto aguardava o casamento, era quase só o que fazia em Rivera, no clube ou em "Ias afueras". Parceiros não lhe faltavam. Demais, sempre era ele quem pagava a cerveja. Exímio atirador. Marcelina conhecia esses gostos e habilidades do seu príncipe?

- Até parece que o senhor o conheceu de verdade, porque o achava parecido com um príncipe hindu, pelo porte esbelto, a pele azeitonada, os cabelos lisos e negros, os olhos mais negros ainda. Uma paixão! Perdão, me exalto.

- Que bom que a senhora ainda tenha essa capacidade!

- Jantaram, foram à ópera, no teatro muitos olhares de homens e de mulheres se fixaram neles. Já tinham conhecidos, acenavam para alguns, as pessoas sentiam-se distinguidas com a deferência, indagavam de onde eram, se iriam ficar morando em Montevidéu, ninguém sabia qual dos dois era mais bonito.

- E na volta para o hotel?

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Excerto de Na Curva do Arco-Íris. p. 102-105. 1ª ed (1985)

 

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