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Luiz Carlos Osório

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CONVERSAS COM MEU UMBIGO I

A questão da natalidade

Nada mais adequado que iniciarmos por uma opinião sobre se devemos ou não nascer. Há um crescente movimento pelo antinatalismo entre jovens de hoje. Se antes era uma contingência do destino nos tornarmos pais e a esterilidade era vivenciada como uma incompletude em nossas vidas, hoje se discute o não ter filhos como uma opção oferecida pelos métodos anticoncepcionais disponíveis.

Sob as mais diversas razões e justificativas muitos optam por romper com o que parecia uma lei natural: a procriação da espécie. Os argumentos vão desde a preservação da autonomia individual até a alegação que o mundo está superpovoado e com tantos problemas que não consiste em um ato de amor colocar nele novos seres.

Bem, minha opinião é que vale a pena sermos pais. Talvez a tenha extraído menos de minha experiência como pai do que a como filho: meus pais sempre demonstraram que sua vida foi enriquecida com os filhos que tiveram. E se não pude dizer o mesmo como pai foi pelas contingências de um divórcio calamitoso que me privou da convivência com os filhos enquanto crianças.

Ter ou não ter filhos deve ser uma escolha de cada ser humano. Mas essa decisão é condicionada à possibilidade de que todos (e aqui me refiro especialmente aos que não tenham acesso aos conhecimentos e meios para fazer seu planejamento familiar) possam decidir a partir da conscientização sobre as consequências do ter ou não ter filhos e da possibilidade de que sejam sustentados se não possam fazê-lo.

Aborto? Para mim, inteiramente justificável em casos de estupro, malformações do feto quando detectadas no início da gravidez ou risco de vida da mãe. Mas ainda assim uma decisão da mãe quando o desejar, por razões suas, sejam quais forem. E sempre com o indefectível apoio do corresponsável pela fecundação.

Métodos anticoncepcionais? Se à mulher cabe a decisão de um aborto entendo que a anticoncepção é responsabilidade, sobretudo, dos homens. O uso da camisinha não traz consequências indesejáveis como possam advir para a mulher o uso de dispositivos intrauterinos ou da pílula. Logo...

E métodos anticoncepcionais sempre, sempre serão preferíveis ao acaso de uma gestação indesejada ou um aborto.

Bem, talvez a sexualidade humana do futuro torne opiniões como essas desnecessárias e obsoletas. Clonagem a partir das próprias células para quem, homem ou mulher, quer ter descendência? Não tão remota possibilidade nos tempos de acelerados progressos na tecnologia da reprodução humana em que vivemos.

 

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CONVERSAS COM MEU UMBIGO II

A questão da finitude

Vamos ao outro extremo da existência. Se temos opiniões sobre o que diz respeito ao surgimento da vida é óbvio que também devamos tê-las sobre seu término. As que vão abaixo já externei em outra ocasião numa publicação intitulada “Considerações nada mórbidas sobre a própria morte”.

Até os trinta anos, a própria morte - a não ser para os que tiveram a experiência de quase morte e retornaram à vida - é um conceito abstrato, que se presta a reflexões filosóficas, se tanto; mas depois dos sessenta passa a ser uma ideia que nos acompanha como a iminência de algo tangível e real, cada vez mais próxima. E quando chegamos aos oitenta não há dia em que não nos ocupemos dela em nossas mentes, o que não é algo necessariamente ruim, desde que para nos lembrar de viver intensamente cada dia como se fosse o último e usufruir os prazeres que a existência ainda nos proporciona, como o convívio com familiares e amigos queridos.

A vida cansa, é verdade. Não por acaso dizemos dos defuntos “finalmente ele descansou!” Imagine só acreditar que reencarnamos: toda aquela trabalheira de nascer, ficar dependente de outros seres humanos para sobreviver e ao final voltar a ser dependentes outra vez. Para mim autonomia é essencial e uma vida só chega!

Se ao menos se pudesse escolher a forma de morrer! Meu ideal de morte seria num acidente aéreo sobre o Atlântico regressando de umas férias na Europa. Um colega e amigo perdeu a vida com mulher e filha nessas condições, mas foi na ida para as férias. Desejaria que fosse no regresso, depois de usufruir minha última vilegiatura, como diriam os portugueses. E sem deixar para os parentes o incômodo de providenciar velórios, enterros e todos os demais rituais que cercam o óbito de alguém. Voltar ao seio da natureza no âmago do oceano, não é muito mais higiênico e poético?

A morte nunca me atemorizou. A pré-morte, sim. Isso de ficar preso a tubos que entram por todos os orifícios do corpo, num leito de hospital, com uma doença terminal... cruz-credo, como diria a tia Anastácia (lembram do sitio do Picapau Amarelo?).

Sou a favor da eutanásia. Infelizmente num estado terminal não teria recursos para viajar a países onde ela é permitida e lá me finar ao som, por exemplo, do coro a boccachiusa da Madame Butterfly. E depois ser cremado, obviamente. Nada de lápides, embora pense que numa lápide virtual poderia ser inscrito : “Soube ser um amigo leal”. Basta. É o que de melhor fiz na vida.

Tive algumas virtudes e muitos defeitos. Tratei de minimizar os defeitos e potencializar as virtudes. Se consegui, não sei. Também não faz diferença para a posteridade. Entre a primeira inspiração e a última expiração o tal périplo existencial de quem tem a consciência, como eu, de que não fez falta para ninguém nem acrescentou algo de realmente importante à bagagem dos seres humanos.

 

Vida da mente após a morte do corpo? Só se for para não desperdiçar toda essa bagagem de conhecimentos, pensamentos, sensações e sentimentos que colecionamos ao longo da existência. Mas, que valor isso teria noutra dimensão? Não, prefiro aceitar a finitude humana ao cabo de uma vida só. O resto é a fútil pretensão à imortalidade. Que a noção de Deus alimenta nos crentes. Mas isso é tema para outro texto.

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CONVERSAS COM MEU UMBIGO III

 

E o homem inventou deus à sua imagem e semelhança

Meus (improváveis) leitores decerto vão se decepcionar, talvez até se escandalizar, com o texto herege que agora escrevo aqui. Mas prometi a mim mesmo que seria honesto com eles e coerente até a medula com o que penso. Se há alguma vantagem que a idade nos traz é a autorização para deixarmos de ser “personas”, tirar a máscara para agradar a plateia e ser a pessoa autêntica que sempre escondemos atrás dela. Aliás - verdade seja dita - ao longo da vida pouquíssimas vezes precisei me ocultar sob o disfarce de um “falso self” pela pressão das circunstâncias. Se não ousei ser mais irreverente e transgressor foi por incompetência para sê-lo e não por falta de coragem.

O homem inventou Deus porque tem medo da morte e não se conforma com sua finitude. Simples assim. E essa criatura - que supostamente teria criado o homem, mas na verdade foi por ele criado - carrega todas as imperfeições humanas, cruel e vingativo em suas ações e omisso quando se fez necessário. Se não, vejamos.

Que Deus é este, de infinita bondade como querem nos fazer crer, cujas criaturas padecem tanto? Por que uns nascem feios ou aleijados, numa sarjeta ou rejeitados por quem os pariu, enquanto outros vêm ao mundo bonitos, saudáveis e fadados a usufruir de todas as benesses do corpo e do espírito? Qual o crime do recém nascido para ficar à mercê de sua própria sorte e abandonado por quem o gerou? Por que tamanha injustiça?

Não há crueldade na inquisição? E omissão da Igreja, que se diz representante de Deus na Terra, quando na II Guerra Mundial tolerou e de certa forma foi cúmplice do nazi-fascismo que atormentou a humanidade?

E se Deus criou tudo, não criou também o pecado?

Tantas outras questões similares poderia aqui levantar para questionar a figura idealizada de um Deus que tudo sabe, tudo pode e é de uma infinita misericórdia. Mas quero me ater à questão proposta na afirmação de que criamos Deus para compartilhar de sua suposta imortalidade, para fugir de nossa impotência diante da finitude e reafirmarmos nossa augusta presença entre os bilhões de seres que habitam o planeta.

Quando alguém sobrevive a alguma tragédia que vitimou milhares de outras criaturas dá “graças a Deus” como se houvesse sido por Ele escolhido para continuar existindo. E os demais, por que não obtiveram essa graça?

Deus é a representação de nosso narcisismo, a extensão do Poder que ambicionamos para nos sobrepor aos demais.

Crer em Deus, seja em que religião se sustente essa crença, não tornou a humanidade melhor. Continuamos a matar em seu “santo” nome nas guerras que travam as facções religiosas. E ao invocá-lo nos livramos da responsabilidade de assumir nossos atos.

Não, não vou criar eufemismos para evitar ferir suscetibilidades, dizendo-me agnóstico. Sou Ateu mesmo, assim com maiúscula para sublinhar minha condição de indivíduo que não acredita nessa entidade divina com que através dos tempos o ser humano vem driblando seu medo do desconhecido e a certeza de sua finitude.

O respeito à natureza ou aos nossos semelhantes não pode se alicerçar no temor à vingança divina; precisa ser compreendido e praticado pelo prazer que nos proporcione e a consciência de que sem tal respeito não alcançaremos a Ucronia sonhada. Ucronia? Que palavra é essa? Justifico noutro texto a invenção desse neologismo.

Para finalizar, o que eu gostaria de perguntar a Deus se ele existisse?

Começaria pela pergunta que Vinicius de Moraes faz em uma de suas canções: “Se é para desfazer porque é que fez?”.