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A DAMA DO SALADEIRO de CYRO MARTINS - Resenha
Waldomiro Manfroi*

3 DE OUTUBRO DE 1930
        Nesta época de muitos e importantes fatos históricos, Cyro Martins, acadêmico de Medicina e seu conterrâneo e estudante de Direito, Waldemar Ripoll, iniciam um movimento estudantil que culminaria, mais tarde, na criação da Universidade de Porto Alegre. E, ao aderirem aos revoltosos, Cyro revela, com detalhes, os caminhos percorridos pelos líderes políticos para a construção da inimaginável aliança entre forças políticas antagônicas, que culminaria na vitoriosa revolução de 1930.Registra ainda como ocorreu o ataque ao Quartel General, às 17 horas, do dia 3 de outubro. Em sequência, descreve a viagem que os dois fizeram de ônibus até Viamão, de onde tomaram um barco para Torres e para Florianópolis. E, durante essa travessia, Cyro dá vazão a seu olhar poético, para registrar o que mais o encantara naquela memorável jornada.

[...]."Dessa travessia, do amanhecer sobretudo, me ficou uma vaga paisagem paradisíaca no espaço, com quase fantasma de sonhos, de tão lindos, da gente pôr-se a olhar os voos dos joões grandes, das garças cor de rosa e de outros pássaros de mirar- se nas águas. Para mim, a cisma dessa alvorada foi o ponto culminante da Revolução. Aquele deslizar em círculos, de asas espalmadas, às vezes movendo-se suavemente, era um toque de doçura, devaneios sorriso diante da vida. Ainda hoje me nutro da magia singelíssima daquele saldo de poesia que me regalou a Revolução de 30... E prosseguimos. Conheci o mar em Torres. Passei a noite em claro, pasmo com o vozeirão mitológico do monstro"...

 

A REPÚBLICA NOVA
        Neste conto Cyro narra mais uma das suas tantas aventuras de jovem idealista ao lado do amigo Waldemar Ripoll. Eles se aliam ao movimento a favor de São Paulo, que promovera a Revolução Constitucionalista de 1932.

"O amigo Ripoll foi mais longe, conspirou, foi preso e exilado em Portugal... Nessa atmosfera de confusões e desalentos, com pouco estudo, escasso aprendizado, leituras literárias esparsas, alguns contos, foi transcorrendo o quinto ano de Medicina. O futuro? Só mesmo entrevisto em termos poéticos. Pobreza, muita. Era o reinado de terno único. Calças de fundilhos luzidios, afinando dia a dia. Erva para mate amargo comprada a tostão. Uma cevadura, virada e revirada, durava dois dias".

 

O GRANDE PROFESSOR
        Neste conto o acadêmico de Medicina Cyro Martins revela detalhes de sua morada e do ensino na faculdade. Mora na pensão da Dona Antônia, bem melhor do que eram as outras bem mais modestas por onde havia passado. Ritinha, filha da dona da pensão, é tuberculosa e já definha em seu quarto. De manhã cedo, depois de visitar a enferma em seu quarto, o acadêmico se despede e toma o Rumo da Santa Casa. Absorto, enquanto caminha, revela o pavor que lhe causa o ato de auxiliar a primeira cirurgia de vulto.

"Ar frio. Calçadas úmidas. Ligeiro nervosismo que se acentua à aproximação do Hospital. Mas era preciso reprimi-lo, não deixar que se anuviasse o estado de tranquilidade e satisfação com que saltara da cama. Pela primeira vez auxiliaria numa intervenção cirúrgica de importância. Não sentia nenhuma inclinação pela cirurgia, mas reconhecia ser uma necessidade para o médico prático saber fazer um pouco de tudo. Eu acompanhara, no Batista, o Dr. Robertinho, saindo de uma casa e entrando noutra, de ânimo permanentemente leve, atendendo casos mais diversos: partos, difteria, fraturas, abcessos, pneumonias, ascite, etc. A perspectiva de cenário tão vasto aterrava. Precisava puxar o que desse na reta final. Por isso reduzi ao mínimo as conversas vadias pelos quartos dos companheiros e no meu próprio....Quem me visse naquela manhã de junho, subindo a rua da Conceição, a passos decididos, o porte sadio, o coração contente, nem de longe suspeitaria a tortura e o deleite daquelas horas extáticas, tão familiares às paredes da minha água- furtada....Desculpei-me simplesmente, sem tentar justificativas, pois a ocasião não se apresentava para explicar o motivo real do meu atraso. De manhã, eu seria sempre um retardatário de quinze ou vinte minutos. Tinha demasiado arraigado o vício da ente crioula: chupar ao menos uma meia dúzia de mates antes do café".

 

        Ao participar do ato cirúrgico, Cyro descreve com maestria,os movimentos do professor, os olhares dos alunos, os períodos de indecisão e os perturbadores espaços de silêncios, como se usasse uma câmara filmadora.

 

UM SENHOR ESPANHOL E OUTRA PESSOA
        Cyro dedica tempo para ouvir dona Antônia a lhe segredar casos de amor inimagináveis. Pela fala das personagens, o narrador nos apresenta então o seu pitoresco mundo na pensão de dona Antônia. É o ouvido do futuro psicanalista que se acende? O senhor espanhol pede socorro a dona Antônia porque a pensionista Margarida revela para todo mundo que é amante de dom Ramon. Comerciante de respeitável família vê-se em apuros por causa das falas malucas da mulher. Ao ouvir Margarida tocar uma valsa ao piano, Cyro se lembra do tio Euclides por ser um pé-de-valsa, quando ele era menino lá fora.

 

DONA MARGARIDA E SUA PAIXÃO
        Cyro narra o desvairado amor de Margarida por Dom Ramon. Dentro de delírio de uma fantasiosa mulher, tira uma lição de quanto uma palavra lançada em circunstância imprópria pode abalar uma conversa ou sentimento. A palavra: "Estes sons, sabe, fizeram-me lembrar a inconstância do amor". Fica difícil de saber se aqui Cyro fala no tempo que era estudante ou já o analista.

 

LINHO BRANCO OU CASACA?
        Cyro nos revela passagens singulares do seu último ano na Faculdade de Medicina.

        Ao dar por encerradas as atividades, com discursos de despedidas, do representante da turma e do catedrático, o então quase médico empreende sua descida para a rua da Praia. Mas, ao passar pela enfermaria, ainda lhe resta um momento para reflexão. "A cerimônia de despedida da enfermaria fora proforma. A nota tocante cingiu às fisionomias extenuadas dos doentes, que ficaram ali como um bando de aleijados à beira de um rio".

[...]"Eu me conservara livre desses encargos de comissões e subcomissões, mesmo porque tinha pouca roupa para tanta festa. Embora meu nome tenha sido lembrado para orador da turma, não colou. Alguém advertiu acerca da minha posição olítica, de oposicionista. Dentro de pouco surgiu uma candidatura governista que me derrotou. Eu descia, então, a Rua da Praia, pertinho das onze horas. A frescura e a luminosidade da úmida manhã estimula o ânimo das pessoas que circulam. Ainda que me dessem encontrões, não ligaria. Estava embebido de bom humor das gentes. Um sentimento de comunhão com os passantes crescia no meu peito, como uma brotação de primavera em campo molhado".

 

A FORMATURA
Cyro revela mais detalhes de sua vida acadêmica e o primeiro susto profissional.

"Onze e meia da manhã do dia da formatura. Mário Martins e eu colamos grau na secretaria, perante o velho Sarmento....Até nem me lembro sobre o que falamos àquelas horas do dia de dezembro de 1933. À noite a turma colaria grau no salão nobre, na estica de linho-branco, afinal vitorioso. Não era por orgulho ou outras diferenças que nós, Mário e eu, não compareceríamos incorporados aos colegas para receber o ambicionado canudo, mas simplesmente por pobreza, bem compreendida e aceita com naturalidade. O custo do linho-branco ultrapassava longe as nossas nenhumas posses, por mais que cavoucássemos no foro dos bolsos".

        Ao chegar à pensão de dona Antônia é saudado por todos como novo doutor, Margarida lhe deseja que case com a mulher dos seus sonhos. Dos familiares teria recebido um inesquecível telegrama de felicitações. Era um dia de sonhos. Mas é chegada a hora de fazer injeção na Ritinha.

''– Está pronta a seringa, doutor.
Sim, vinha da própria doentinha, expressando uma ânsia de querer viver, a voz que me surpreendeu no instante em que começava a não acreditar na possibilidade de que em sua laringe ressoasse uma palavra sequer, quanto mais uma frase. Serrei a ponta da ampola. Enchi a seringa.Passei a borracha em volta do bracinho delgado. Cuidadosamente, fui injetando o liquido claro, requintando em habilidade, pois aquela seria a última injeção que aplicaria na menina. Quando o êmbolo trancou no fundo, puxei a seringa. A operação transcorrera esplêndida.
– Não doeu nada, doutor.
− Nenhuma ardenciazinha?
– Nada.
− Mas onde diabo fora parar a agulha?
Foi a pergunta que me fiz, fixando, pasmado, o canhãozinho dourado embutido no bico da seringa. Fiquei confuso. E, instintivamente, levei a mão ao braço da menina, comprimindo-o com violência. Ela soltou um "ai" que foi menos de dor que de susto da minha cara transformada. Mas continuei a apertar-lhe os músculos débeis cada vez com mais força, trêmulo, fulo, o coração a bater sacudido por um tufão de medo. E só larguei o b bracinho frágil ao constatar que a menina embranquecia e entrava em desfalecimento. Fitando-lhe o rosto imóvel, exclamei: morta! Recuei, levando as mãos à face, como quem quer esconder dos próprios olhos uma realidade tenebrosa. Uma única explicação me ocorrera para aquilo, obsedante: a agulha havia subido pelas veias do braço, penetrado na subclávia e, finalmente, ferido o coração! Bela estreia, ótimo começo, no dia da formatura...Ouviam-se murmúrios de suspeitas, as de sempre nessas ocasiões. Seria imperícia? Alguém levantaria a hipótese de que o jovem médico era partidário da eutanásia. Um escândalo. A polícia chegando, o corpo sendo removido para o necrotério, para ser necropsiado...Desviei o olhar para baixo da sua mesinha de luz. Um fiozinho metálico luzia entre duas tábuas do assoalho. Sem comentários, me agachei e apanhei a agulha. Sim, era ela, a bandida. Ao deixar o quarto, notei a exaustão que pesava sobre meus ombros e não pude fugir à comparação clássica: mãos de chumbo me seguravam".

 

MÃOS AMIGAS DO PRÓXIMO
        Cyro, o jovem médico de campanha, vai atender a um chamado numa chácaraem substituição ao consagrado profissional Robertinho. Trata-se de uma mulher em trabalho de parto há horas. Mesmo contando com a ajuda da parteira local, o bebê não avança. Por ser muito jovem e ter dito que viera no lugar de outro, a parteira o chama de guri e o olha com desconfiança de quem não acredita ou não quer que tenha sucesso.

        Como se trata de um caso muito difícil para um jovem médico, nada melhor do que associar à cena uma noite de tormenta, trovões e raios para traduzir o horror que representa aquela sua difícil missão. Usa a injeção recomendada e aguarda sob o olhar desconfiado da pateira e do marido. Não funcionou, como havia prometido. Usa então, outra de óleo canforado. Nada feito. Deu-se conta então que só havia uma saída para solucionar o difícil caso: uso de fórceps, instrumentos que nunca havia empunhado. Com o cuidado e o pavor de quem desmonta uma mina de guerra, Cyro, o psicanalista e escritor, descreve as manobras que realizara com todo o cuidado possível para não lacerar as partes íntimas da jovem mulher e não traumatizar o crâneo do feto. Por fim, o sucesso do seu primeiro parto à ferros com palavras do poeta:

"E logo, de repente, num assombro, a pressão do fórceps afrouxou e saltou para o ar fino da aurora que vinha raiando uma cabecinha de gente, untuosa, que aparei nas mãos em concha, inteira, ali, no meio do campo, rodeado dos olhares expectantes de criaturas que não me desejaram o melhor, por carência humana".

 

INESPERADAMENTE DE MANHÃ
        O jovem médico Cyro clinicando em sua terra natal, São João Batista do Quaraí, tenta encontrar indícios que precederiam ao suicídio do dono do hotel, com quem tivera amistosa conversa horas antes. Mistérios que rondam a vida de um jovem médico, para os quais quer encontrar explicações. Seriam já indícios do futuro psicanalista?

 

ORA, POIS, ACONTECEU UM POETA
        O jovem médico Cyro descreve, com maestria, as particularidades das camadas sociais de São João Batista. Nele há o Cyro político inconformado com as injustiças sociais que os partidos tradicionais não vêm. "Não era nunca fui um desinteressado da política. Mas idealizava uma participação em ideias que, se expostas ali escandalizariam meio mundo. Ambicionava batalhar pela melhoria de vida da gente miserável da redondeza da cidade que arrastava seus dias e os mulambos em ranchos guenzos, sem noção de coisa nenhuma, apodrecendo simplesmente. Família, propriamente, não existia.Demais, pouca carne, pouco leite, escassos grãos. Ao lado desses males, alinhavam-se outros: a tuberculose, a sífilis, a cachaça, o carteio, a tava".

        Ao ser chamado por um homem para atender à esposa acamada, narra detalhes da medicina da época e o que as palavras dos pacientes e dos familiares podem revelar, quando se lhes dá a oportunidade. Já no início da consulta, a mulher lhe revela que tem medo que o caso dela seja apendicite.Não há uma epidemia de apendicite na cidade, Doutor?Com essa pergunta feita pela paciente, Cyro registro um fato real: nas décadas de 1930 a 1960, as cirurgias por apendicite aguda eram muito frequentes nas cidades do interior. Por meio da escuta da mulher e do marido, em momentos separados,consegue identificar dramas emocionais guardados nos recôncavos da memória que revelavam um misto de satisfação e remorso.

        Há o misterioso poeta que volta à cidade natal de tempos em tempos, para aguçar a imaginação especulativa dos habitantes locais. Há o prefeito que derruba as árvores e o centenário coreto da praça para modernizá-la com uma fonte luminosa no centro, numa cidade que não tem água encanada. Há a grande nova que caracteriza a modernidade chegando:o jogo de víspora. Local que é frequentado por homens e mulheres.

        E há o registro da relação das rádios de Buenos Aires com as cidades da fronteira, por meio da novela radiofonizada às 22 horas, que as pessoas acompanham com singular interesse.

Através das personagens o leitor fica sabendo como era a vida das pessoas daquela mágica cidade: fatos políticos, relatos íntimos, conflitos, desgraças deixadas por guerras, condição social e paixões bem ou mal resolvidas.

 

ENTRE MÉDICOS
Cyro aproveita a consulta de uma paciente com depressão para registrar a tragédia que fora a Revolução de 1923, quando a degola voltou a atingir de vermelho os verdes campos do pampagaúcho.

 

NEVOEIRO DENSO
        O jovem médico Cyro caminha por ruela estreita, escuro e coberta por nevoeiro, na companhia do filho de um enfermo, que fora buscá-lo na cidade para atender ao pai. Durante a caminhada, ele aproveita para fazer uma reflexão na sua vida profissional.

"Três anos medicando numa cidadezinha tinha aprendido muito com o povo, mas financeiramente, nada havia conquistado. Ademais, os conhecimentos da faculdade iam se esmorecendo. Pouco ou quase nada o prendia nas origens. O pai havia falecido subitamente, há dois anos. A mãe entrara em depressão da qual não se livrava. E onde ficava o sonho de especialização no Rio de Janeiro, Buenos Aires. ´Talvez Paris. Mas as dúvidas crescem conforme se espicha o caminho. Nunca gostara de laboratório e da pesquisa requerida para um médico de cidade grande".

Por fim, ao examinar o velho em fase terminal, não deixa de praticar a nobre missão de: ouvir o paciente, examiná-lo e confortá-lo, mesmo que nada mais tenha a fazer. Uma humanística e hipocrática lição médica.

 

NOITE DE CABARÉ
        Cyro aproveita a ocorrência de uma tragédia a que fora chamado a atender, para introduzir outro hábito muito frequentenas cidades fronteiriçasde então: o cabaré/cassino. O de São João Batista abria e fechava frequentemente, conforme a onda de interesses políticos. As associações familiares e a igreja faziam campanha para que o estabelecimento ficasse fechado. Muitos senhores abastados haviam ficado na miséria por causa da roleta. Mas, quando o partido do governo precisava de recursos financeiros para a campanha eleitoral, as luzes e a música do cabaré reascendiam. Localizada na barranca do Rio Quaraí, facilitava a chegada dos frequentadores uruguaios que alimentavam o estabelecimento com seus pesos fortes. A pretexto de contar um incidente trágico ocorrido entre amigos na noite de despedida do poeta Ângelo que embarcaria de madrugada para São Paulo, Cyro revela as nuances que caracterizam a jogatina do cassinoe os encontros entre pessoas: as músicas em vitrola da época, os quartos cor de rosa das prostitutas. Os amigos Ângelo, o poeta, o jovem abastado Argeu, Oliveirinha e a profissional Afonsina, rabicho do Argeu, decidem passar a noite bebendo e ouvido música até chegar a hora da partida do poeta, que deve pegar o trem das seis. No raiar do dia, já sem a presença do poeta, surge a tragédia: ferimento mortal no abdômen de Argeu por tiro de revólver disparado por Oliveirinha. Se o disparo foi intencional ou acidental fica para interpretação do leitor. O autor bem que dá algumas pistas que talvez possam esclarecer o julgamento certo ou errado leitor.

 

A DAMA DA SALADEIRO
        O escritor Cyro Martins nos oferta a cereja do bolo. Com justiça, o autor dá ao novo livro o nome deste conto. Parece que Cyro viajou na memória para caracterizar o que fora sua vida na campanha, quando estudante de Medicina em Porto Alegre e quando médico da sua pequena São João Batista do Quarai. E quer mostrar como eram as pessoas com quem convivera, o que acontecia nos locais onde vivera e no mundo ao longe. E deixa para antessala da cena final uma bela sinfonia que retrata um tempo de glória do Rio Grande do Sul: as charqueadas. Não só a sede monumental que se perdera no tempo, mas, sobretudo, a misteriosa filha herdeira dos bens, que além de poeta era mulher viajada e de fino trato. Surge, então, no encontro de um jovem médico e literato principiante com uma poeta já reconhecida, os contrastes culturais. Mesmo que tenha sido convidado pela herdeira do famoso estabelecimento, a poeta Ophelia Calo Berro de Ribeiro, para o chá na mansão do Saladeiro São Carlos, ele continua se sentindo o menino filho da venda de seu Bilo. O detalhe que o leitor fica da cena apresentada em diálogo entre convidado e anfitriã é o embaraço do jovem médico diante de uma damade costumes refinados. Mas se Cyro parece revelar o quanto continuava se sentindo longe do mundo das pessoas abastadas. Além dessa possível intenção do autor, sentado no carro puxado pela parelha de cavalos do seu Jesus, num admirável flashback, no regresso do encontro, lembra o que representava para as pessoas de sua cidade natal aquela histórico e falida tapera.

"Eu nem conhecia ainda dona Ophelia, a herdeira do saladeiro de onde eu regressava. Não me defrontara numa mesa – toalha de linho alvíssima e engomada, talheres importados e louça de porcelana e outras finuras mais que mais que fugiam ao meu conhecimento – com a autora de El ÁrbolJoven e Saudade de Plenilunio.... Eu acabara de sair, sim, dum rancho apertado tão miserável e fedorento quanto os demais da redondeza. Estivera tentando salvar uma criança estrangulada pelo crupe, naquela rotina de todos os dias e inglório cravar de dentes na polpa da miséria. Aquele rancho ficava nas imediações do Saladeiro, e o Saladeiro ainda gozava de prestígio da minha infância. Tratava-se de uma antiga charqueada, desativada desde anos. Os galpões, os varais os mangueirões de pedra, a imponente mansão do dono, Dom Emílio Calo, o casario dos trabalhadores já desmoronando, os restos de canteiros no jardim, os arvoredos depenados, o pomar já improdutivo, todos esses detalhes e relevos integravam o cenário de ruídos por onde pervagam sobras de outrora prósperos.
Quantas vezes me demorei, absorto e anônimo, extasiado diante daquele coliseu crioulo, absolutamente sem propósitos, a não ser os poéticos, enquanto a aragem penteava tênue a copa dos arvoredos e as horas passavam, ao tranco ou a galopito, conforme o ritmo da imaginação, sem que eu reparasse que passavam, numa sequência de ecos de antanho!
Sempre que me acontecia um chamado ali perto, fugia para lá depois, como se não tivesse outros compromissos. As ferramentas enferrujadas, as engrenagens entorpecidas, os caldeirões, as alavancas, os varais para a secagem do charque, as cercas de pedra dos mangueirões com arrogância de fortaleza, tudo enorme, deixavam-me adivinhar, naquelas contemplações demoradas, a força deteriorada dos materiais. Sentia ganas de pôr as mãos em concha diante da boca e gritar num apelo de vida àquelas energias paralisadas"

        Depois de registrar uns versos da poeta Ophelia no texto, Cyro decide nos deixar, enfim, a essência da sua mensagem no seguinte parágrafo.
        "Sim, o leitor quer saber? Me tornei amigo de dona Ophelia e quantas e quantas vezes me deu este conselho:
− Váyasse, váyasse! – com receio de que a rotina do meu São João Batista do Quaraí me colasse definitivamente as asas sobre o corpo.

 

VÓRTICE MÁGICO
        Cyro nos revela quando e como foi que decidiu seguir os conselhos da amiga Ophelia e ouvir os apelos do seu anseio interior para partir de São João Batista, a fim de nos brindar com sua sabedoria e sua obra literária.

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* Médico Cardiologista, Pesquisador, Escritor. Professor na Faculdade de Medicina da UFRGS, Membro da Cadeira 58 da Academia Riograndense de Medicina, desde 2010.