Os festejos sob a batuta profana, acionada com elevado fervor cívico-carnavalesco,
destacam e invertem a condição
do pobre diabo; do mísero
faminto; do singelo escravo,
transfigurado agora em senhor
fidalgo, em Rei e Imperador.
O carnaval destaca a
exaltação do ridículo, a apologia
do absurdo e a alegria
maníaca que se converte em
arte e se sublima em alma. Ao malograr a repressão, há o
predomínio do comportamento
mais excêntrico e a evidência
da idealização e da onipotência,
paralela à negação da
miséria.
A alacridade contagiante
revela a carapuça encobridora
de uma profunda solidão,
que se traduz numa alegria
burlesca.
O carnavalesco
integra-se tão profundamente
nas marchas –
ranchos, com seus
ritmos langorosos, dolentes,
para surpreender
a plateia, com um salto
brusco, deslumbrando
a multidão ao entrar na
ritmopeia em obediência
ao ribombar de rojões,
ao ruflar de tambores
e ao som estridente das
cornetas.
O carnaval institui
um clima de ampla
permissibilidade consentida
e oficializada num
O reinado de Momo
O carnaval apresenta-se
como o apogeu
das celebrações de rituais
pagãos e reflete características
orgiásticas envoltas na penumbra
dos séculos.
Em nosso meio, transfiguram-
se em ópio da gentilidade,
em efeméride nacional
e em um clímax de efusões
tropicais.
A explosão da folia rompe
a depressão de trezentos e
sessenta e muito dias de jejum
recreativo, e de expectativa
sobre o próximo destempero.
O carnaval caracteriza um
período de libertinagem,
de explosão de instintos
reprimidos, episódios em que
a censura canônica venda os
olhos à iniquidade. O pecado,
se transforma em pecadilho. êxtase policrômico, que
abre alas à culminância
de ações maníacas ao
acesso à libertinagem, sem
tréguas nem limites, e
aos desregramentos da conduta
humana.
A extinta escravatura ressurge
ampla e fidedigna como
consolo e como rememoração,
destinada aos descendentes
para sentirem como ela foi,
ou mais precisamente, como
almejaram que ela fosse.
Tais rememorações de
preferências suprimem a
apresentação do escravo no
cepo e na senzala. Dão preferência
a êmulos de reis e
rainhas que o saudosismo
faz reviver no simulacro das
roupagens e nas estátuas,
a imagem magnificente e
configurativa de exemplares
João Gomes Mariante,
psicanalista
“ O carnaval é a
lidima ribalta, onde
o expectador deixa
a plateia para ser
protagonista. É o
espaço em que revive
a aspiração de ser
o que não é, e o
que não se permite
ser no cotidiano da
existência.” da realeza do Congo e
da Nigéria.
Nos três dias, o carnavalesco
abdica da condição de
vassalo para assumir a nobiliárquica
categoria da realeza
avoenga.
No carnaval, as excentricidades
e os disfarces propiciam
a submersão de recalques,
estagnados sob o comando
da repressão para aflorarà superfície.
O carnaval é a lidima
ribalta, onde o expectador
deixa a plateia para ser protagonista. É o espaço em que
revive a aspiração de ser o
que não é, e o que não se
permite ser no cotidiano da
existência. O carnaval, em
suma, é a extravasão pantomímica
do amargor das "três
raças tristes".
* João Gomes Mariante é Psicanalista e Editor do Jonal MenteCorpo, de onte se extraiu este texto( ed. fev2011)