Neste ano de 2008, rememora-se o Centenário de nascimento do ilustre quaraiense Cyro Martins. No estado, várias instituições educacionais, órgãos públicos e privados estão preparando eventos para a comemoração dessa importante data.
Destacar Cyro é, sem dúvida, evidenciar a literatura quaraiense, gaúcha e nacional. O seu legado foi muito importante no mundo cultural das letras e da literatura. Sua caminhada foi determinante em descrever a figura típica que representa o povo gaúcho. O morador característico da região da campanha e dos pampas é o centro do trabalho de Cyro. Com a famosa trilogia do “gaúcho a pé” - Sem Rumo, Porteira Fechada e Estrada Nova - e outras importantes obras, Cyro retrata nessas produções o campeiro como personagem, somado à vida, aos costumes, ao cotidiano da campanha. É o reencontro do autor com a sua infância, o resgate para a ficção, Cyro resgata nos seus textos ficcionais, usando uma linguagem coloquial campesina, sem ufanismo, dos relatos populares, da paisagem e a vida da campanha na Região de Fronteira. É a atenção do autor nas narrativas, mesclando imaginação e realidade – característica de Cyro – recordando as vivências de quando era criança, mais a consciência de retratar o humano.
Cyro Martins destaca-se na literatura e na ciência. Por esta, deixando sempre à vista o que ele chamava de humanismo psicanalítico; assim, a participação e o pioneirismo na Psicanálise Freudiana foi de grande relevância para o Rio Grande do Sul e para o Brasil. Aliás, a projeção de Cyro como escritor é notável dentro e fora do país: os trabalhos ganharam reconhecimento internacional, sendo traduzidos para o Espanhol e o Alemão. Os ensaios psicanalíticos revelam um homem da ciência, voltado para os problemas sócio-culturais do seu tempo.
Dentre os vários trabalhos literários publicados, cito outra obra importante: o romance histórico - Gaúchos no Obelisco. Trata-se de uma história ficcional que reconstitui os eventos políticos ocorridos entre 1930 e 1937, e os ímpetos de uma bela trama de amor vivida por personagens simples da campanha e em meio às vicissitudes de uma fase da História gaúcha e nacional.
Ao analisar vários trabalhos de Cyro, selecionei esse romance, para realizar uma leitura comparada e que serviria de pesquisa ao concluir minha graduação em Letras. Em conjunto com as professoras Marlene Feijó (orientadora monográfica) e Lilá Simon Acosta, ainda a professora Nadja Boelter, amiga, conhecedora e admiradora das obras do nosso ilustre escritor – foi realizada uma análise de evidências entre as obras Gaúchos no Obelisco, de Cyro Martins e Sabina, de Eliseo Salvador Porta (escritor uruguaio, artiguense, também médico). O trabalho ganhou nota máxima na avaliação dos mestres, na faculdade de Letras da URCAMP de Alegrete, sendo indicado para publicação, destacando-se por ser um trabalho também bilíngüe. Desta forma, Cyro e Porta tomaram dimensões maiores, para que eu continuasse e aprofundasse as análises literárias, realizadas no Curso de Pós-graduação na UNESC – Universidade do Extremo Sul Catarinense -, na cidade de Criciúma, em Santa Catarina. Hoje, sob a orientação e coordenação do Prof. Dr. Celdon Fritzen da UNESC - doutor especialista pela Universidade de Campinas - SP - estão sendo aprofundados os estudos dessa pesquisa. Aspectos da literariedade, análises textuais, dentre outras peculiaridades compõem o enfoque desse novo projeto, que também contribui para o reconhecimento, aqui na região sul de Santa Catarina, do grande intelectual, do médico, do homem escritor, figura importante do Quaraí. Mais que isso, assim vem o projeto Fronteiras Culturais do Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise - CELP Cyro Martins estendendo-se por caminhos mais longínquos, como em Berlim, capital da Alemanha. Graças à dedicação e à organização da ilustre filha do escritor – Dra. Maria Helena Martins – o trabalho inteligente resgata as raízes culturais e ganha dimensão universal de propósitos contemporâneos – notabiliza Quaraí e a região fronteiriça, além Brasil. Cyro, numa mescla de arte e de magia que a literatura imprime, soube conduzir nossas limitações e sua inquietudes sócio-políticas, instâncias de um tempo histórico, vivido com lucidez e paixão, pelo tempo na História, desde as suas raízes: o Garupá.
No ir e vir como “devir da criação” expresso pelo autor, Cyro retrata – por meio da ficção – Quaraí na sua essência. Retrata, muitas vezes, na própria trajetória de vida, nossas necessidades de crescimento e de futuro. O êxodo amargo, por “dejar el rincón”, é triste. O jovem Cyro sentiu a necessidade de andar. Fez o caminho-êxodo da trilogia. Sofreu, sem perder o humor de vida. Venceu. Mas nunca deixou a alma para trás. Nesta carregou, sem valise, a bagagem da graça que o fez transformar os “recuerdos” em imagens, por palavras, no exercício disciplinado e surpreendente do texto. Cyro é ícone da nossa literatura, um quaraiense, e, com certeza, sem fronteiras.
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* Prof. especialista em Língua e Literatura pela Universidade do Extremo Sul Catarinense-Criciúma-SC.
Prof. efetivo de Português e Espanhol pela rede municipal de educação de Araranguá-SC.