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FRONTEIRAS CULTURAIS
EM LIVRAMENTO E RIVERA

Crianças da Escola Maternal Baby & Companhia
visitando o Parque Internacional
REVELAÇÕES CULTURAIS DA FRONTEIRA
(Clique aqui para apresentação em audiovisual)
Como todo projeto, o Fronteiras Culturais ao se pôr em campo começa a tomar configurações que a circunstância e os participantes lhe dão. Assim, a pesquisa se fará a partir de práticas desencadeadoras de processo envolvendo as comunidades santanense e riverense, de modo a revelarem valores e qualidades, artes e ofícios -as peculiaridades fronteiriças, enfim, transformando-as em produções suas, para seu próprio desfrute, para oferecer a vizinhos e a forasteiros. E daí se alastrar fronteira afora.
Estão previstos três módulos básicos autônomos, mas inter-relacionados, promovendo práticas e fornecendo elementos para pesquisa:
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Oficinas de Criação e Leitura - Partindo da leitura e discussão dos contos de Campo fora, de Cyro Martins, em português e em espanhol, cada uma deve ter um jeito próprio para verificar relações entre esses textos e a história geral da região; as histórias familiares; o modo de falar de santanenses e riverenses; os costumes e as tradições; o dia-a-dia da fronteira de hoje.
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Fronteira em Rede - Centrado no registro de depoimentos sobre "O que é viver na fronteira", que pode ser feito tanto via Internet, quanto escritos em formulários a serem distribuídos em escolas e outros locais.
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Charlas Fronteiriças - Surgiu da percepção da possibilidade de tornar o projeto, desde logo, conhecido por muita gente e porque a recepção favorável que tivemos da mídia nos incentivou a pensar numa parceria também com rádio e jornal. Trata-se espaço radiofônico para leitura de contos de Campo fora/Campo afuera e comentários a respeito - em grupos de discussão-, sempre cá e lá, acompanhados de comentários sobre o texto lido. Posteriormente, deve haver votação, aberta a todos os ouvintes, para escolha do melhor conto, através de cupons publicados em jornal.
ACOMPANHANDO O PROCESSO
Esta seção se abre para os participantes do projeto darem seus depoimentos, registrarem atividades e apresentarem suas criações
DEPOIMENTOS
Cultura fronteiriça e Campo fora
Nossa cultura fronteiriça está muito fraquinha diante dos olhos dos porto-alegrenses, pois se reportam a nós como a metade pobre do Rio Grande do Sul. Acho um erro a condescendência dos nossos políticos locais, estes argumentos, embora com razão pelo lado econômico, é humanisticamente depreciativo e age como cimento na baixa estima, dificultando a abertura da mente para outros valores como a cultura, a vida integrada à natureza que, na minha opinião, são mais importantes.
Sinto em Campo Fora um amor pela simplicidade da convivência do homem com os animais, de trabalho e ao mesmo tempo de lazer. Também, uma opção comportamental dos personagens pela vida natural, dispensando os caprichos do consumismo. Cyro já viveu e escreveu há mais tempo, profetizando aquilo com o que convivemos hoje, o materialismo. Revela em suas histórias o luxo de uma vida que hoje tanto buscamos e não temos competência para encontrá-la. Não é incrível sentir-se de repente um estúpido, ao descobrir-se numas das leituras do Cyro, que só o progresso econômico não satisfaz um homem, tanto quanto um homem, seus animais e suas aventuras"?
Carlos Alberto Potoko (Livramento - RS) - julho de 2001
Ecos do projeto - de 2001 para 2007
REGISTROS DE ATIVIDADES
Charlas Fronteiriças
Acontece em Santana do Livramento, durante a programação da rádio Cidade AM 1.300, no programa Perfil de Mulher, que é transmitido no horário das 11h às 11h e 45min, e apresentado por Noemi Kurtz. Nesse programa está ocorrendo uma das atividades do Projeto Fronteiras Culturais em Livramento e Rivera - Vozes da Fronteira. O objetivo é transmitir aos ouvintes das comunidades de Sant'Ana do Livramento e Rivera um conhecimento maior sobre a obra Campo Fora, de Cyro Martins, que tanto acrescentou e acrescenta à nossa cultura. Durante o programa são realizadas entrevistas com personalidades locais, que valorizam e conhecem o estilo do autor que tão bem informou a realidade do gaúcho da sua época. Já foram entrevistados o poeta, declamador e escritor Velocínio Silveira, o popular Lenço Branco, e também o escritor Carlos Alberto Potoko, que com a apresentadora, formaram grupo de discussão, acompanhados de leitura e comentários sobre determinados contos, da obra Campo Fora.
Durante a apresentação há a preocupação de esclarecer o significado das palavras que hoje não são comuns no vocabulário fronteiriço, assim como a comparação dos acontecimentos da época retratada nos contos ( início do séc. XX) com a atualidade. Tudo para que o ouvinte sinta-se atraído em conhecer a obra do escritor Cyro Martins e participe do concurso literário, que premiará a melhor poesia e a melhor pintura, assim como a publicação das 10 melhores poesias.
As próximas entrevistadas do programa serão representantes de duas instituições parceiras do projeto Fronteiras Culturais: a Secretária de Cultura de Sant'Ana do Livramento, Profa. Zélia Vargas, e a presidente da Associação Cristã de Moços /Asociación Cristiana de Jovenes - Fronteira, Sra. Cláudia Cartana, no dia 26 de setembro.

Noemi Kurtz - jornalista |
Um perfil de Gaúcho
- Entre o campo e a cidade
Antônio Carlos Guedes Barreto, conhecido como Gaúcho Barreto, é o típico gaúcho da fronteira. A alpargata de corda nos pés, a bombacha e a boina fazem parte da sua vida, "o tamanco de madeira uso no inverno, o par de botas só em dia de festa. Não sei me vestir de outra forma", confessa. Nasceu no dia 23 de fevereiro de 1940, no Lajeado Grande, 4° Distrito de Alegrete, na estância do avô. Ali viveu até os oito anos e aprendeu a amar tudo que estivesse ligado ao campo. Lá pelos idos de 1950, veio com a família para Sant'Ana do Livramento. Gurizote, foi vendedor do jornal A Platéia, na época de propriedade de Toscano Barbosa. Também trabalhou como engraxate, quando, na gestão do prefeito Camilo Gisler, recebeu uma caixa de madeira, pintada com a inscrição Prefeitura Municipal, da qual se orgulhava. "Fui leiteiro do Naum Karuszki, entregava leite no café Ponto Chick, na sorveteria Gruta Azul, no clube Caixeiral e no restaurante do Pedrinho", recorda.
Quando tinha quatorze anos, seu pai foi embora de casa lhe deixando a responsabilidade de manter a mãe e as duas irmãs. Era necessário ganhar mais, e para isso era preciso trabalhar mais. A oportunidade de voltar às origens, de pôr em prática a paixão que tinha pela terra, levou-o a aceitar o emprego na estância Artigas, na época de propriedade de Mário Paiva. Eram 242 quadras de sesmaria. "Lá fui peão campeiro, caseiro, ajudante de aramador, monteador (aquele que trazia a lenha do mato), esquilador e tropeiro".
Gostava daquela vida, mas era na cidade que as coisas aconteciam, a música, as moças, as festas, a aventura atraíam o jovem Antônio Carlos, e, um belo dia, empolgado, vendeu os bichinhos que tinha, juntou suas economias, comprou um caminhão e abandonou o campo. Iniciava a etapa mais curiosa da sua vida.
- Tentações e riscos da fronteira
A fronteira seca entre Livramento e Rivera era palco de contrabandos (isso era quase natural), para os grandes proprietários e até para os pequenos, chamados por aqui de chibeiros. "Segredo entre dois, mata um! Puta e ladrão é sozinho", afirma. E foi assim que trabalhou: sozinho. Trazia do Uruguai azeite, farinha, lã, ovelha, de tudo um pouco. "Coima (propina) prá polícia nem pensar, eu é que corria o risco, passava trabalho e não admitia dividir meu sacrifício com ninguém, por isso e mais algumas pilantragens, em 1969, peguei 10 anos de cadeia. Cumpri 5 anos em regime fechado e 5 na condicional. Desde esse dia nunca mais tirei a barba da cara nem cortei o cabelo. Homem que perde a vergonha não tem o direito de mostrá a cara", diz. Alfabetizado na cadeia, Gaúcho Barreto lembra da professora Úrsula da Luz, que lhe deu aula no 4º e 5º ano primário. Lá também aprendeu a cozinhar, "porque era serviço leve e podia depois ter serventia". De fato, criou fama de bom cozinheiro. Volta e meia é chamado para fazer um churrasco, um carreteiro, um ensopado de espinhaço. Também foi motorista de táxi por alguns anos, o que o tornou muito popular. Atencioso, de bom coração, muitas vezes emprestava dinheiro para os fregueses que vinham da campanha e precisavam comprar algum remédio e não tinham al contado. "Tudo era sempre devolvido com a recompensa: um queijo ou um pedaço de carne. Coisas da Fronteira da Paz, onde crio meus filhos com pouco dinheiro. Os frigoríficos fecharam! Não há empregos, não temos recursos, não temos nada, afirma, ao lembrar das dificuldades por que passa a fronteira".
- Recuerdos sem ressentimentos
Hoje, é no Bar do Barreto que a gente encontra o Gaúcho, onde trabalha e mora com a família. "Eu sou feliz com o que faço e com a família que tenho", conclui. Casado com Joana Caldeira Barreto, é pai de Roseli (28), Emerson Carlos (26), Adriana (21), Antônio Carlos (20), Carla Mariana (18), Coreolano (9) e Pedro Moacir (5), dos quais tem orgulho, e afirma serem educados, trabalhadores e dispostos. Destes, dois são filhos adotivos. Mantém junto com a família um velho amigo com 101 anos, o Gaúcho Pampa, que ainda trabalha como peão na Estância do Cambará, campereando a cavalo e ganhando o salário. Quando folga o serviço, o refúgio é a casa do Gaúcho Barreto.

Gaúcho Barreto com seus guardados |
No local, Barreto mantém um pequeno museu. Ali podem ser vistos um velho pilão, a cabeça de boi empoeirada, a máquina de debulhar milho manual, um violino sem cordas, o violão com que foi homenageado Nelson Gonçalves quando aqui esteve, o antigo arado Pula Toco, a tulha prá bóia, o cincerro que muito tilintou no pescoço do boi que guiava a tropa, as cordas dos arreios, a tesoura de esquilar, um velho rádio a bateria, as panelas de ferro com que preparava a comida dos tropeiros, a velha gaita que animava as noites de festas. Impossível enumerar todas as relíquias que ali estão reunidas com cuidado. Em um canto da peça sobre um tonel a gata de três pêlos dá de mamar aos filhotes. Por instantes tenho a impressão de estar em um galpão de estância. Só falta o fogo de chão e o negro velho enchendo o mate e contando causo.
Noemi Kurtz
Jornalista e assessora para o evento REVELAÇÕES
Fronteira em Rede
POEMAS PREMIADOS NO CONCURSO DE POESIA E PINTURA
promovido pelo Depto. de Cultura da SMECD de Livramento
Concurso Internacional
LENDO, POETANDO E PINTANDO CAMPO FORA - CAMPO AFUERA
Concurso criado pela Profa. Zélia Mendina, chefe do Depto. de Cultura, da SMECD de Livramento, em adesão ao projeto Fronteiras Culturais em Livramento e Rivera. A proposta foi de que os autores se inspirassem nos contos de Campo fora/Campo afuera, de Cyro Martins, para criar suas obras. A seguir apresentamos os três poemas primeiros colocados e as pinturas escolhidas pela Comissão Julgadora da SMECD.
POESIA
PRIMEIRO LUGAR
Título: ACALANTO NOTURNO
Referência: CONTO "SEM RUMO"
Autora: MARLENE TERESINHA COLI RIBEIRO PEDROSO
Pesam as pálpebras do dia ...
Entreabrem-se, longos e mágicos
Os cílios da noite.
Profundo e misterioso olhar noturno
Alonga-se sobre as distâncias
Subindo e descendo coxilhas ...
Percorrendo estradas e trilhas ...
Perdidas na garoa.
Na caravana do poente,
O berro lânguido e triste da tropa,
Confirma a apreensão do menino:
" Valha-me, santo e bendito Negrinho!"
No tropel do Minuano, rasteiras ...
Vagueiam encolhidas esperanças ...
Escancarado abismo
Projeta sombras inquietantes ...
Perdida na escuridão, treme ...
Soluça ... chora ...
Desfalece, impotente a criança !
Guizos, cuicas, chocalhos,
Pandeiros, berimbaus, atabaques ...
A orquestra campeira executa,
Com maestria, primevas canções de ninar!
SEGUNDO LUGAR
Título: TEMPO DE SECA
Referência: CONTO "TEMPO DE SECA"
Autora: MAIRA ANGÉLICA FONTES ARAÚJO
o sol
é fogo vivo
dilatado e vermelho
inundando os céus ...
a terra
queima, arde
tem a vida ceifada
pelo calor escaldante
o gaúcho
da casa pequenina
vê
a solidão
da garça branca
à beira da lagoa rasa
que revela: é tempo de seca ...
Chuva? ... Nem previsão
No lado Oriental
a nuvem demonstra ...
na sua timidez ...
Sobrevive o gaúcho
da esperança
no fim da seca ...
da esperança
em rever
os campos verdejantes
e a terra fértil
exalando cheiro de vida ...
TERCEIRO LUGAR
Título: SONHOS ... TESOUROS
Referência: CONTO "TESOUROS"
Autora: LEATRICE COLI RIBEIRO PEDROSO
No perau foi encontrado
Solito a andarilhar
Ria-se de felicidade
Por ter estado a sonhar
Nas lidas todas do campo
Por todos era estimado
Sabia muito bem o ofício
Que desde guri era apegado
Seguia a sina dos sonhos
Na busca de toda existência
Cuidando de não revelar
Sua preocupação com muita paciência
Mateava, matutando o pensamento
De que nos cerros da vida
Ao largo da lida campeira
Lhe seria dada tal dita
Na tapera, de velha esquecida
Seu tesouro foi encontrado
Na felicidade do campo aquecida
Seu sonho enfim: revelado
Das muitas moedas de ouro
Que a vida toda campeou
Trouxe no peito a vitória
Por saber que o sonho achou.
PINTURAS
MENÇÃO HONROSA
Título: FLETE
Autor: IVAN SEVERO DA COSTA
Pintura baseada no conto "FLETE" (p.71)
" Assoleado, esmorecido, o cavalo balançava arquejante batendo forte o coração. As narinas vermelhas, arregaçadas, resfolegavam num ritmo apressado de estafa. Pescoço espichado, olhos tristes, orelhas murchas, e o suor caindo em gotas grandes pelas mãos e patas.
Os aperos molhados e moles como se houvessem ficado ao sereno.
O homem, sentido da campeada puxada e brava, movia-se lerdo, tratando com mimo o flete Bueno".
MENÇÃO HONROSA
Título: ANOITECER EM TEMPO DE SECA
Autora: LEATRICE COLI RIBEIRO PEDROSO
Pintura baseada no conto "Tempo de Seca" (p.80):
"As sombras subiam dos baixos, devagarinho, arrastando-se, agarradas ao flanco dos cerros. Mas nas pontas ainda amarelava um clarão de dia."
PRÊMIO ESPECIAL
Título: TEMPO DE SECA
Autor: CONCEIÇÃO AMARINA DO PRADO
Pintura baseada no conto "Tempo de Seca", pág. 80:
"Quando ponteou a Serrinha, nascia o sol, dilatado e vermelho, fogo vivo montado a aba do Cerro Grande. Sinal certo de que a seca havia de prolongar-se ainda por dois ou três meses[ ...] Viu só uma nuvenzinha branca, coisinha nada, longe, para o lado do Estado Oriental. [...]
... O chão, aberto em largas brechas, manoteava traiçoeiro [...]
Na beira rasa duma lagoa seca, uma garça branca ... "
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