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Prática Médica e Literatura*

                                                                       Roberto Bittencourt Martins**


                                             I

      Para iniciar nossa conversa de hoje, vou recorrer às palavras que concluem o ensaio de Cyro Martins, “Perspectivas Humanistas da Medicina Contemporânea”:

    “Quando se sugere aos médicos que, além de profissionais, sejam também humanistas, isto não significa uma solicitação para que se dediquem mais aos assuntos gerais, à temática permanente no homem, e descurem suas preocupações de ordem técnica, seus conhecimentos de aplicação imediata. O que dessa forma se está insinuando é que, não obstante a estrita atividade profissional, se mantenham atentos às vibrações da sua época, que poderá ser, conforme a expressão de Ortega y Gasset, de grandeza ou de rotina. A nossa é de grandeza, porque é decisiva.” (1)

           E acrescentaria, utilizando idéias de outro artigo de Cyro: essa atenção é necessária para que o médico possa identificar em si próprio as consequências de condições de trabalho que podem levá-lo ao ponto em “que nem sabe se é um profissional liberal ou um mero despachante da mercadoria chamada doença, um encaminhador de papéis”...(2). Desse modo, poderá elaborar as angústias  inerentes a um trabalho muitas vezes realizado sob pressão das deformações do sistema de atendimento médico em nosso país.  E poderá também tolerar as ansiedades  decorrentes de sua necessidade de compreender, suportar e acolher o sofrimento humano  diante das contingências da vida.

              Posso aqui lembrar a história de um médico do interior que é chamado à noite por um rapaz cujo pai está muito mal, nos arredores ermos da cidade. Embora desanimado, o doutor cumpre seu dever e acompanha o desconhecido.

               O percurso é longo. Enquanto se embrenha a pé pelos caminhos pedregosos, o médico vai pensando nas correntes pesadas que prendem seus pés àquele chão. Pensa em sua clínica, qualificada como dos três pês – parentes, pobres e putas. Mergulhado nas sombras dos terrenos baldios, começa a imaginar histórias de terror em que está sendo levado para alguma armadilha sinistra. Finalmente, chegam a um casebre miserável. O médico se agacha para poder passar pelo portal pequeno. Vê então um velho de bochechas chupadas e ossos salientes espichado numa cama e rodeado de algumas pessoas, parentes ou vizinhos, com ar preocupado. O médico toma o pulso, ausculta o ventre escavado. O doente se queixa de que não consegue comer faz três dias. O exame prossegue e o doutor percebe a inexorabilidade do fim. Mas, quando o velho pergunta se irá ficar bom, responde que sim, e nota uma expressão de agradecimento na fisionomia do paciente. Aplica uma injeção, receita, faz recomendações e se despede, deixando mais desanuviado o clima entre os companheiros do enfermo. Dispensa a companhia do rapaz agradecido e volta sozinho na madrugada para sua casa, em meio a um nevoeiro denso. “Nevoeiro denso” (3) é o nome desse conto de Cyro Martins e podemos presumir que, em seu todo ou em parte, muito dessa história terá acontecido na vida do jovem doutor Cyro. Esse “nevoeiro” evoca provavelmente as dificuldades de seu trabalho naquela fase inicial da profissão – e as ansiedades vividas naqueles momentos de encontro com uma realidade amarga. Talvez a percepção de que irá precisar desprender seus pés das correntes que o aprisionam àquele chão para evitar que seus conhecimentos médicos restem tão desenganados quanto o doente idoso, de olhos baços, imobilizado em seu catre.    

 

                                          II     

 

               Medicina e Literatura têm sido muitas vezes atividades entrelaçadas. Médicos e ficcionistas foram dois dos  primeiros romancistas brasileiros: Manoel Antonio de Almeida (autor das “Memórias de um Sargento de Milícias”, que, embora formado, parece não ter chegado a clinicar). E. é claro, o gaúcho Caldre e Fião, autor de “O Corsário” e “A Divina Pastora”, “romances de aventura” passados no cenário da Revolução Farroupilha. Desde então, meados do século XIX, muitos outros seguiram, aqui no Rio Grande, os trabalhos dessa dupla jornada. Como  Dyonelio Machado ou nosso recentemente falecido Moacyr Scliar, que iniciou em 1962 seu vasto trajeto literário com a publicação de um livro de contos de nome significativo, “Histórias de um médico em formação”, e que, respondendo a uma entrevista, assinalou: “É raro que escreva alguma coisa em que não haja alusão à minha condição de médico.”(4). Pois, como observou em “A Face Oculta” (5), médicos têm muitas histórias para contar. E isso porque, além das revelações que os seres humanos lhes fazem em suas consultas, os médicos têm de lidar com a angústia que toma conta deles em razão das responsabilidades da profissão.

               Mas é com a lembrança de outro notável escritor médico – esse estrangeiro - que irei prosseguir. Disse ele, em resposta ao questionário de um colega sobre a influência da medicina em sua criação literária: “Ela” (a medicina) “ampliou de maneira significativa a abrangência de minhas opiniões e enriqueceu meus conhecimentos de um modo cuja importância para mim como escritor só um médico pode avaliar. Sua influência também me serviu de guia; a intimidade que estabeleci com a medicina provavelmente me impediu de cometer muitos erros. A familiaridade com as ciências naturais e com o método científico fez com que me mantivesse sempre alerta.” E prossegue Anton Tchekov: “Não sou um desses escritores que negam o valor da ciência e não gostaria de ser um desses que se julgam capazes de descobrir tudo sozinhos.”(6).

              Sinto uma certa semelhança de tom quando Cyro Martins, respondendo  a uma pergunta similar – no caso, relativa à sua própria especialidade médica, a psicanálise -, diz a  Abrão Slavutsky: “Ao fazer ficção, os conhecimentos psicanalíticos me serviram, isso sim, para evitar certos erros que alguns escritores cometem na criação de suas personagens. A psicologia dos personagens não foge da psicologia das pessoas que a gente conhece”.(7).  Não pretendo aqui estabelecer comparações entre Cyro e Tchekov.  Mas podemos ver algumas similaridades não só na despretensão dos dois. Ambos nasceram no extremo sul de seus países, em cidades com muitos estrangeiros. Tchekov, em Taganrog, à beira do mar de Azov, com grande número de gregos; Cyro, como sabemos todos, em Quaraí, nas bordas do Uruguai. Os dois eram filhos de donos de armazém e foram criados vivenciando bastante o clima movimentado dos negócios dos pais – muito embora o severo pai de Anton não tenha tido a habilidade de Seu Bilo, pois acabou perdendo sua mercearia, descrita como bastante descuidada. E ambos se dedicaram, em formas diferentes, à medicina e à literatura. Cyro, na criação de romances e contos, e em ensaios literários e científicos. Tchekov, nos contos e novelas que tanto li em minha juventude, e nas peças teatrais, antes menos notadas e hoje repetidamente reencenadas no mundo inteiro.

 

                                    III

 

               Tchekov, como lembra Janet Malcolm, “falava da medicina como sua mulher e da literatura como sua amante”.... “mas ele nunca exerceu a medicina em tempo integral nem se distinguiu particularmente como médico.” (8). Embora tal observação não seja de todo equivocada e o sustento de Tchekov, desde estudante, tenha sido proporcionado pela literatura, existem inúmeros relatos a respeito de sua dedicação à medicina, feitos por ele e por outros. Ainda jovem médico, aos 25 anos, escrevia ele a seu tio Mitrofan: “A minha profissão médica dá-me muito o que fazer. Gasto diariamente mais de um rublo em transportes. Tenho muitos amigos e conhecidos e, por conseguinte, não me faltam doentes. Metade, trato-a de graça, e a outra metade paga-me de 3 a 5 rublos por visita”. (9)....”Ainda não fiz fortuna, nem espero fazê-la tão cedo, mas vivo razoavelmente e não me falta nada”. (10).               

         

              Em correspondência para amigos e parentes, Tchecov contará também como vive bem com os camponeses que o tratam “como se eu fosse meio santificado. Falo com eles como amigo. Nunca ergo a voz. Mas a causa principal de nossas relações é a medicina”. (11). Assim, já escritor consagrado, em sua casa de campo em Melikhovo, como descreve em carta, “desde manhã muito cedo as mulheres e crianças esperavam a hora da consulta à porta de nossa casa.” Às vezes, era acordado à noite para ir ver alguém doente ou ferido.

 

                                      IV

  

                São vários os contos e novelas de Tchecov em que os protagonistas são médicos no exercício da medicina:”O Médico”, “Um caso de clínica médica”, “Enfermaria número 6”, “Inimigos”, “O Investigador”, “A Duquesa”...(12). Neste último, podemos encontrar ecos de uma passagem contada por Tchekov em carta: ao lutar contra uma epidemia de cólera, solicitara um abrigo para os camponeses doentes em terras de uma rica proprietária, a Condessa Orlov-Davidov. Assim como o bispo da região, ela desprezou Dr. Tchecov e seu pedido. E talvez a Duquesa do conto tenha traços da hipocrisia arrogante da condessa proprietária. No conto, depois de desmascarar a falsa benemérita no ambiente hipócrita de um convento, o médico termina por resignar-se e submeter-se a uma realidade injusta. Podemos imaginar que assim, na criação dessa ficção, o doutor possa ter conseguido dar vazão a muitos dos sentimentos despertados pelo episódio e que compõem, pelo menos, uma tripla denúncia: a religiosidade fingida da Duquesa, a crueldade do sistema rural e a  submissão  dos médicos em geral em sua luta pela sobrevivência. São nossas especulações, é claro. Mas que podem encontrar guarida no conhecimento das tristes condições em que a medicina muitas vezes é exercida, submetida à falta de solidariedade ou cupidez dos poderosos – como a Duquesa ou o Bispo. Ou, como em nossa época, de outras entidades. Gerando talvez o mesmo sentimento de humilhada indignação que impregna o conto.

  

               Mas o próprio Tchekov observava sobre sua ficção: “só consigo escrever de memória, nunca escrevo diretamente a partir da vida observada. Preciso deixar que o assunto fique sendo filtrado pela memória, até que apenas o mais importante e típico permaneça no filtro”. (13). 

   

              A “vida observada” a que se refere está à mostra em sua correspondência. Numa carta ao amigo Suvorine, escreve a respeito de sua viagem ao oriente: “Depois de sairmos de Hong-Kong, o nosso navio principiou a gingar.”.... “Em rota para Singapura lançamos dois homens ao mar. Quando vemos um morto, embrulhado em panos de bordo, dar um salto mortal antes de entrar na água, e nos lembramos que o mar tem mais de uma milha de profundidade, sentimo-nos aterrorizados e sem querer nos pomos a pensar que também nós podemos morrer e também podemos ser assim lançados ao mar.” (14). O incidente, como observa seu biógrafo David Magarshack, foi descrito depois num de seus contos (“Gusev”) e ilustra bem o contato angustiante com a morte – e, pensando psicanaliticamente, com a Pulsão de Morte – inevitável na prática da medicina. Profissão cujo ensino, a propósito, se inicia com o estudo do cadáver.

                 Anton Pavlovich não viveria muito. Entre outras doenças, portava uma tuberculose que, não diagnosticada por muito tempo, iria matá-lo aos 44 anos, em 1904. Janet Malcolm observa que a frase - “A vida só nos é concedida uma vez” – , ou alguma variante dela, aparece constantemente nos contos de Tchekov e “é apresentada de maneira tão tranqüila e casual que quase nos escapa o terror que nela existe”.(15). Malcolm também pondera que, na época de Tchekov, a medicina não tinha o poder de cura que agora possui: “Os médicos entendiam de doenças que eram incapazes de curar. Um médico honesto teria considerado seu trabalho em larga medida deprimente”.(16). Talvez tal condição tivesse sua importância na afirmação feita na carta a Suvorine e transcrita por extenso pelo biógrafo Magarshack: “A medicina é a minha mulher legítima, e a literatura, a minha amante. Quando uma me enfada, passo a noite com a outra. Pode não ser uma coisa respeitável, mas é menos aborrecido e, além disso, nenhuma delas se sente prejudicada com a minha infidelidade.”(17).

  

             Quanto a essa “mulher legítima”, a “esposa” medicina,  sabemos que seu propósito é o de manter saúde e vida, combatendo a doença e a morte. E, a respeito dessa dita “amante”, cabe aqui recordar algumas palavras escritas por Cyro em “A Criação Artística e a Psicanálise”: “Através da atividade artística, os homens tentam elaborar toda a gama dos sentimentos de culpa e de angústia da morte, assim como as tendências sado-masoquistas que os arrastam à procura de castigo e de auto-agressão”...(18). Essa tentativa busca, ao  mesmo tempo, “reparar o devastado, restaurar os objetos externos danificados e fortalecer o próprio ego”... Em “Formatura” (19), história de conteúdo autobiográfico, o próprio Cyro ilustra bem essa procura de elaboração capaz de proporcionar a integração psíquica.

  

                A narrativa, feita na primeira pessoa e 48 anos depois, começa com a colação de grau de Cyro e de seu amigo Mário, efetuada à tarde, no gabinete do Diretor da Faculdade, de modo simples e rápido. Os demais colegas da turma iriam ter a formatura realizada à noite, no Salão Nobre, na “estica” do traje de linho branco que os dois amigos, por “pobreza bem compreendida e aceita com naturalidade”, não podiam custear. Nos degraus da Faculdade, ambos conversam e depois se despedem.

  

               O relato prossegue com a chegada do recém-formado à pensão onde a dona o abraça e lhe deseja felicidades e um “mundaréu” de dinheiro. É levado também ao quarto da filha da dona da pensão – Ritinha -, moça doente, que também o felicita. Embora não lembre bem, tantos anos transcorridos, julga lhe ter sido entregue um telegrama de congratulações da família. Já recolhido a seu quarto, senta-se na cadeira guenza que usara tantas vezes para ler e para deixar que se evolassem “pela janela mil fantasias, algumas estremunhadas, e outras desejosas de criar alma nova num conto”. Contempla os “telhados velhos e seus beirais castigados”, “o soalho sujo encardido e carunchado” da pensão modesta, água-furtada semelhante a tantas outras em que morara durante seus estudos. Despede-se de suas paredes gastas, agora que, já formado, voltará à terra natal. Toda essa rememoração é interrompida pelo presente inesperado de umas flores compradas pela dona da pensão, num gesto de gratidão e desprendimento que fala do afeto de mãe e filha. Vem depois o chamado de Ritinha, que lhe solicita, mais uma vez, a injeção do remédio para sua enfermidade. Ele entra no quarto da moça doente e, enquanto ferve a seringa, sente “o bafio daquela peça, uma mescla de cheiro de remédios, de vapores de folhas de eucalipto, de tuberculose e desesperança”. E, enquanto vai conversando com Ritinha, percebe sua “aparência acabadinha” e pensa em quantos meses ela ainda terá de vida – um, dois, três? Aplica a injeção – a última que lhe daria – e, ao puxar a seringa, dá-se conta da falta da agulha. Não a encontra e, agoniado, imagina que a agulha “havia subido pelas veias do braço, penetrado na subclávia, descido por veias grossas e, finalmente, ferido seu coração”. Comprime o braço da doente, pensa que ela logo estará morta e que a culpa será dele. Resta ali, como descreve: “imobilizado na beira da cama, braços caídos em derrota, olhos fixos na lividez de Ritinha e dentro de mim nenhuma esperança de salvação.” Imagina o escândalo no primeiro dia de sua vida de médico, a acusação de imperícia ou de eutanásia. Mas, quando volta seu olhar novamente para a “doentinha”, sente o “leve arfar” de suas narinas e encontra as pupilas delas como “duas tristezas geladas”. Olhando para o chão, encontra “o fiozinho metálico” luzindo no assoalho. Ao retornar, já acalmado, para seu quarto, nota “a exaustão que pesava sobre meus ombros” – como se mãos de chumbo o segurassem. Mãos de chumbo que serão  produzidas pela experiência emocional profunda que, com sutileza, transmite ao leitor. Podemos compartilhar assim da emoção presente naquele momento de despedida da jovem doente e do médico que a tem tratado e que a sabe desenganada. Talvez como ela própria anteveja, no instante da última injeção que ele lhe terá aplicado. Todo um conjunto de frustrações do médico ganha sua representação afetiva naquela tristeza funda em relação a Ritinha, para quem a medicina não pode dar uma vida que, se poderia ter sido, não acontecerá.

              

                A história é bastante expressiva das ansiedades e temores do jovem médico, que terá de aprender a administrá-los.  E termina, segundo me parece, ao estilo de Tchekov, com a visão de “um avião deslizando entre nuvens”, detalhe aparentemente “insignificante” que “corta” seu fio.  

                                        

                                        

                                           V

 

                 Em seu livro “Nada a temer” (“Nothing to be frightened of”), editado em 2008, o escritor inglês Julian Barnes reúne, na visão de um ateu, um conjunto de memórias e reflexões sobre quem somos e para onde vamos – ou seja, sobre nossa identidade e como podemos encarar a inevitável certeza do fim. Entre muitos outros, cita o compositor Shostakovich que, julgando ser o medo da morte o sentimento mais profundo que temos, observou: “A ironia está em que, sob a influência desse medo, as pessoas criam poesia, prosa e música; isto é, tentam fortalecer seus elos com os vivos e aumentar sua influência sobre eles”.(20). Barnes pergunta então: “Criamos arte para derrotar, ou pelo menos para desafiar a morte?” E conclui: “O gosto muda; as verdades se tornam clichês; formas inteiras de arte desaparecem. Até o maior triunfo da arte sobre a morte é risivelmente temporário”. (21). Nisso, portanto, nada diferente da própria medicina que pode curar a doença e prolongar a vida, mas não é capaz de eternizá-la

.  

                  Contudo, como sabemos todos, a arte é necessária, imprescindível não só para quem a cria, como para quem a recebe – ou recria – em sua própria mente. Um conto, um romance que lemos são de certo modo roteiros para o livre exercício de nossa própria imaginação, destinados a fazer trabalhar nossa sensibilidade na elaboração de nossos próprios conflitos, perdas e frustrações – tanto por efeito consciente, quanto pela emoção reanimada no Inconsciente. E, como diria Cyro, são capazes de fortalecer nosso ego, proporcionando ao ser humano “uma imagem menos espezinhada do mundo que o rodeia e do mundo de seus objetos internos”. (22).

  

                  Julian Barnes cita ainda o médico americano intensivista Sherwin Nuland,  autor do livro “How We Die”, que diz: “...de todas as profissões, a medicina é a  que tem mais probabilidade de atrair pessoas com alta dose de ansiedade pessoal em relação à morte”. (23). Barnes então comenta com humor: “Esta é uma boa notícia sob um importante aspecto – Médicos são Contra a Morte; é uma notícia não tão boa no que se refere ao fato de que eles podem, sem querer, transferir os próprios medos para seus pacientes, insistir demais na cura e considerar a morte um fracasso.” (24). Desse modo, vemos ser apontado mais um dos deveres do médico em seu ofício: o cuidado com as próprias exigências, ansiedades, projeções e contra-transferências. 

  

                   Tudo isso nos remete à necessidade de elaborá-las, num trabalho essencial para a manutenção da própria saúde mental e, dessa forma, para também melhor equipar o terapeuta em seu ofício. Ao criá-las, na prática literária da ficção, ou ao recriá-las, na elaboração ativada por sua capacidade de comunicação, conseguem ser abertas as janelas. Janelas metafóricas através das quais, na expressão de Cyro, podem “evolar-se mil fantasias, algumas estremunhadas e outras desejosas de criar alma nova”... E de restituir a harmonia divisada no dinamismo leve, forte e veloz – como uma flecha rumo ao futuro - daquele “avião deslizando entre nuvens” que finaliza o conto de Cyro e nossas palavras aqui.   

 

             

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

  

Martins,C.“Perspectivas humanistas da medicina contemporânea”. In “A Criação Artística e a Psicanálise”. Porto Alegre: Sulina, 1970, p. 76.

Martins, C. e colaboradores. “Perspectivas da Relação Médico – Paciente”. Porto Alegre: Artmed, 2011 (1981), p. 21.

Martins, C. “Você deve desistir, Osvaldo e outras histórias escolhidas”. Porto Alegre: LPM Pocket, vol.205, 2000 (1980).

“Personagem Médico”. In “Medicina – publicação oficial do Conselho Federal de Medicina”. Brasília: C.F. Medicina, 2011, março, p.12.

Scliar,M. “A Face Oculta”. Porto Alegre:Artes e Ofícios, 2010, p.58.

Malcolm,J. “Lendo Tchecov – Uma viagem à vida do escritor”. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005 (2001), p.105.

Martins,C. e Slavutsky, A. “Para Início de Conversa”. Porto Alegre: Movimento,1990, p.101.

Malcolm, J. Op. cit., p.105.

Magarshack, D. “Tchecov”, trad. João Gaspar Simões.

Lisboa: Aster, 1960, p. 84.

Magarshack, D. Op. cit., p. 94.

11) Magarshack, D. Op. cit., p. 310.

 

    12) Malcolm,J. Op. cit., p.391

13) Malcolm,J. Op. cit.,p.112.

14) Magarshack, D. Op. cit.,p.269

15) Malcolm,J. Op. cit., p.118.

16) Malcolm,J. Op. cit., p. 174.

17) Magarshack, D. Op. cit., p.165.

18) Martins, C. “A Criação Artística e a Psicanálise”, p.19.

19)Martins,C. “Você deve desistir, Osvaldo e outras

     rias escolhidas”, p.123.

 20) Barnes, J. – “Nada a Temer.” Trad. De Léa Viveiros

         de Castro.Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2009, p.207.

   21) Barnes, J., Op. cit., p. 208.

   22) Martins, Cyro – A Criação Artística e a Psicanálise.

          Porto Alegre: Sulina, 1970, p.19.

   23) Barnes, J. Op. cit.,p.184

   24)  Barnes,J. Op. cit., p.184.

* Trabalho apresentado na VIII Jornada CELPCYRO sobre Saúde Mental - Porto Alegre, 06 de maio de 2011

** Médico psicanalista e escritor