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Fronteiras Culturais - Fronteiras Culturais em Livramento e Rivera | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Escuelas de frontera - Onde se trocam cultura, idioma e conhecimentos
Reprodução da matéria autorizada pela jornalista Meire Cavalcante e pela Ed. Abril,
Milhares de crianças brasileiras estudam com colegas de países vizinhos. Uma realidade rica e peculiar, que começa a ser explorada pelos professores.
- Buenos dias, professora. Diálogos bilíngües não são raros em salas de aula localizadas nas fronteiras brasileiras. Ao longo de uma linha de 15700 quilômetros de extensão, existem cerca de 5500 escolas distribuídas por 120 municípios. Para estudantes e professores dessas regiões, a riqueza do encontro de culturas torna-se uma importante fonte de conhecimento e de recursos didáticos. "Os povos que vivem dentro de tamanha proximidade geográfica não partilham apenas o território mas toda a cultura", afirma Jacira Helena do Valle Pereira, professora de sociologia da educação da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). "As pessoas deixam de pertencer a um ou a outro país e passam a construir uma identidade fronteiriça." É o que ocorre na cidade gaúcha de Santana do Livramento, vizinha da uruguaia Rivera. O fato de os dois municípios serem separados por uma rua — um lado da calçada é brasileiro e o outro é uruguaio — torna exemplar a situação dos moradores e, em especial, dos alunos, que se habituam a informações geográficas, históricas e culturais de ambas as nações. Lá, a mistura se dá nas famílias, na língua, nos costumes e mesmo no comércio, onde o peso e o real convivem em harmonia nas caixas registradoras das lojas. Na zona rural, os limites são dados por enormes marcos de concreto. Neles, os nomes dos dois países ficam em faces opostas. Na foto acima, por exemplo, o fotógrafo Tamires Kopp posicionou-se no Uruguai para retratar a escola e as crianças brincando em solo brasileiro. "As peculiaridades da fronteira e as possibilidades de ensino que elas trazem são ignoradas na maioria das escolas do Brasil", afirma Jacira Pereira. Poucas secretarias municipais e estaduais brasileiras têm políticas públicas ou desenvolvem projetos que atendam à demanda dos 585 mil estudantes fronteiriços. "As aulas são dadas como em qualquer outro lugar do país." O efeito disso, na opinião da pesquisadora, é a segregação de alguns jovens e crianças. Durante seus estudos no Brasil, a professora entrevistou uma adolescente paraguaia que afirmava, num primeiro momento, não ter nenhum contato com o seu país. Com a evolução da conversa, a menina acabou confessando que possuía muitos parentes lá. Seus laços afetivos eram com o Paraguai, mas ela negava por vergonha. Afinal, por aqui, a imagem que se difunde é a de que tudo o que vem das terras paraguaias não é bom. Os colegas a chamavam de chipa — uma iguaria parecida com o nosso pão de queijo, vendida nas ruas. A professora ouvia a garota ser chamada pelo apelido depreciativo, mas não interferia. "Se a menina tivesse espaço para falar sobre sua cultura ou para dar a receita da chipa aos colegas, sua origem seria valorizada e ela se sentiria respeitada", diz Jacira. Em sala de aula, as riquezas locais Em Santana do Livramento, a idéia de aproximar os diferentes povos começa a amadurecer entre os educadores. Desde 2001, a secretaria municipal de educação e a coordenadoria da secretaria de estado no município estão implantando em suas redes o Projeto Fronteiras Culturais. O objetivo é enfatizar no ambiente escolar a valorização e o respeito às culturas que convivem nas ruas. "O trabalho depende da conscientização dos professores sobre a importância de aproveitar pedagogicamente essa situação tão peculiar", ressalta Carmem Vijande Pedrozo, coordenadora do projeto no município. "A questão é tratada freqüentemente com indiferença", comenta Maria Helena Martins, idealizadora do projeto. De acordo com ela, muitas crianças que vivem em Santana do Livramento não são sequer "apresentadas" ao obelisco que divide as duas cidades. As escolas que participam da iniciativa utilizam textos do médico, psicanalista e escritor Cyro Martins, pai de Maria Helena. Suas obras, escritas a partir da década de 1930, tratam da identidade do fronteiriço. As administrações de Santana do Livramento e de Rivera estabeleceram um acordo de colaboração envolvendo as escolas e as comunidades. Apesar de a participação não ser obrigatória, a resposta está sendo bastante positiva. "Radialistas, poetas, artistas e líderes de entidades comunitárias utilizam seu ofício para disseminar a valorização da cultura local, por meio de reportagens, obras de artes e exposições", exemplifica Maria Helena. Parcerias entre escolas dos dois lados As iniciativas na rede pública começam com a questão da língua: no Brasil, o espanhol é ensinado a partir da 5ª série e nos colégios uruguaios também já se ensina português. Entre as redes dos dois países, parcerias são firmadas. A Escola Municipal de Ensino Fundamental Aldrovando Santana, na zona rural, trabalha em conjunto com a Escuela 135, em Rivera. A primeira etapa do projeto no Brasil envolveu o estudo da cultura gaúcha. No ano passado, a criançada explorou as próprias origens, pesquisando elementos da cultura e do folclore. "Concluída essa etapa, visitamos os vizinhos para expor o que levantamos. Em seguida, recebemos os uruguaios em nossa escola para que também nos apresentassem elementos de sua cultura", conta a professora de Língua Portuguesa Tatiana Braz Pereira, que lecionar na escola até 2003. Em Matemática, a professora Joice Velasque explora o câmbio monetário, presente no dia-a-dia de todos. "Aqui, é comum pagar em reais e receber o troco em pesos", afirma. Os docentes, no entanto, não se limitam à sua área de atuação. Joice faz parte do grupo que, no projeto realizado este ano, cuida da culinária. "Convidamos as mães para preparar doces e pratos típicos para levar à escola de Rivera." O projeto ainda não se estendeu a todas as escolas da cidade, mas até quem não recebeu capacitação acaba desenvolvendo trabalhos nesse sentido. Por iniciativa própria, Maria Andréa Lemes Walter, professora da Escola Estadual Multisseriada Saldanha da Gama, na zona rural, pesquisa com a garotada as origens dos povos da fronteira e aproveita o que os estudantes trazem de casa. "Do lado de lá os livros didáticos ensinam uma história diferente da estudada aqui. Comparo essas versões e pesquiso com eles", conta. Maria Andréa também já está à procura de parceiros em escolas do Uruguai. Dialeto une português e espanhol "A que lado você pertence?" A pergunta é corrente na região, mas há casos em que o endereço não quer dizer muito. Maicon Felipe Lavadias Ramos, aluno de 5ª série de Maria Andréa, é uruguaio, mas tem pai e mãe brasileiros. Já Belmiro Pereira Ferreira, que está na 4ª série, tem pai uruguaio e mãe brasileira. Alfabetizado em português, ele lê e fala poucas frases em espanhol. "Obrigado" pra cá, "gracias" pra lá, surgiu entre os moradores uma terceira língua (veja quadro à esq.). Conhecida como portunhol no Brasil, é chamada de DPU (Dialeto do Português no Uruguai) pelos vizinhos. Característico da fronteira, o dialeto é uma mistura dos dois idiomas e mais um elemento que define a identidade do povo da região. "Tento sensibilizar os educadores para aceitarem a linguagem e se basearem nela para ensinar português e os demais conteúdos. A criança se retrai se seu jeito de falar é visto como problema", afirma Carmem Pedrozo. Para ela, não só o dialeto, como tudo o que caracteriza a fronteira, deve ser valorizado. "Assim, os estudantes encontram sentido ao aprender e entendem melhor o que os cerca." Dois países, três jeitos de falar Veja alguns exemplos de palavras e expressões utilizadas na fronteira de Santana do Livramento (RS) e Rivera, no Uruguai
A língua muda, mas o ambiente é um só Sete dos dez países com os quais o Brasil faz fronteira têm o espanhol como língua oficial. No entanto, há lugares onde se falam diversos dialetos indígenas, além do francês (na Guiana Francesa), do holandês (no Suriname) e do inglês (na Guiana). Separada por um rio da cidade guiana de Lethem, está Bonfim, município de Roraima. Lá, o professor Nedir dos Santos Pereira, da Escola Estadual Aldebaro José Alcântara, aproveita o cotidiano da região fronteiriça em seu planejamento.
O idioma oficial na Guiana é o inglês, ensinado a partir da 5a série, mas muitos chegam se comunicando em dialetos indígenas. "Falo em português e monto grupos em que os integrantes conhecem as diferentes línguas. Eles se ajudam." No ano passado, quando lecionava para as 4as séries, Nedir desenvolveu um trabalho de valorização da diversidade e de atenção ao meio ambiente. "A falta de recursos e de transporte seguro para a travessia impediu que eu fosse com a turma para o outro lado. Mas explorei as fontes de informações que tinha em sala, as crianças de diferentes origens", conta Nedir. O professor coordenou pesquisas sobre a história da colonização do Brasil e da Guiana, o surgimento das cidades vizinhas e o que existia em comum entre elas, utilizando elementos da culinária, do folclore, do artesanato e da ecologia. A garotada estudou temas delicados que fazem parte do dia-a-dia da localidade, tanto do lado brasileiro quanto do da Guiana: as queimadas, o tráfico de animais, o desmatamento, a exploração de seringais e a caça e a pesca predatórias, facilitados pela falta de fiscalização. "Os alunos percebem que é da responsabilidade de todos, independentemente de sua nacionalidade, preservar o lugar onde vivem."
O que é fronteira? É a linha que define os limites geográficos do país. Na fronteira brasileira há: 10 países *Dados referentes ao Ensino Infantil e ao Fundamental.
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