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Suzana Guerra Albornoz

Conhecido e admirado por um grupo bastante numeroso de estudiosos,com muitas teses acadêmicas que lhe têm sido dedicadas, naAlemanha como em outros países da Europa e América do Nortee, mesmo, algumas, no Brasil, Ernst Bloch, contudo, não temestado presente nas redes predominantes da academia e damídia neste começo de século XXI e, se nos anos da moda domarxismo podia parecer demasiado utópico ou herético paraos ortodoxos da doutrina do realismo científico, em temposde pós-modernismo e pós-marxismo mantém o seu discreto lugar à margem,pelo que me parece interessante, ainda hoje, ao abordar umaspecto de seu pensamento, começar pela apresentação do filósofo,sua vida e sua obra.

ENRSTBLOCH: VIDA E OBRA

ErnstBloch nasceu a 8 de julho de 1885, em Ludwigshafen, Alemanha.Filho de uma família de origem judaica, viveu intensamenteo drama dos judeus alemães no século XX. Por outro lado,a situação geográfica especial de Ludwigshafen, frente aMannheim, segundo ele próprio viria a afirmar, influenciousua consciência ao mesmo tempo socialista, solidária coma classe operária, cuja situação era patente na Ludwigshafenindustrial, e humanista,ávida da cultura artística e clássica,esta que brilhava nos salões da Mannheim imperial.

ErnstBloch estudou Música, Filologia, Física e Filosofia: de 1908 a 1911, em Berlim, onde foi colega de Georg Simmel; de 1911 a 1914, em Heidelberg, onde foi aluno de Max Weber e colegade Karl Jaspers e Georg Lukács, com quem desenvolveu longaafinidade.

Humanistae socialista, pois, durante a primeira guerra mundial, Blochse recusou a lutar, exilando-se na Suíça. Casou-se pela primeiravez com Else von Stritsky, russa de origem aristocrática,de profundas convicções religiosas. Else morreu precocementeem 1921. Em sua única obra até hoje traduzida para o português – ThomasMüntzer, teólogo da revolução -, o filósofo mostra seuentusiasmo com o misticismo cristão, tão forte na Rússia,e com os novos caminhos sociais e políticos de dimensão messiânicatrilhados pelo povo russo naqueles anos da Revolução de 1917,sendo estes elementos aliados a um pathos doloroso,que expressa, de algum modo, o luto recente.

Apósa República de Weimar e com o advento do nazismo na Alemanha,em 1933, começa longo período de exílio – em Zürich, Viena,Praga e, finalmente, em 1938, nos EEUU, onde Karola Bloch,de formação arquiteta, providenciaria o sustento da família.

Terminadaa segunda guerra mundial, em 1949, Bloch pôde escolher entrea Universidade de Frankfurt, na Alemanha ocidental, e aUniversidade Karl Marx, em Leipzig, na zona oriental, tendooptado por esta, coerente com seus ideais socialistas.

Todavia,suas idéias eram demasiado livres e originais, idealistaspara o gosto da ortodoxia do partido comunista da então DDRe, após a repressão da rebelião da Hungria, em 1956, quandose manifestou solidário com o povo húngaro e contra a intervençãoautoritária, o filósofo e seus discípulos passaram a servigiados, impedidos de falar e perseguidos, por isto, em 1961, por ocasião de uma licença para visitar amigos na Alemanhaocidental, a família Bloch não retornou a Leipzig, iniciando-seo período de Tübingen, na Suávia, sul da Alemanha ocidental.

Os últimosdezesseis anos do filósofo, que acompanharam os efervescentesdecênios da revolta dos jovens pelo mundo, foram de intensaatividade docente e também de liderança política, desenvolvidasobretudo como inspiração da geração estudantil e a partirdessa encantadora cidade universitária, academicamente famosatambém porque, no século XIX, seus mais ilustres alunos,os jovens Hegel, Hoelderlin e Schelling, lá honraram o seminárioluterano de teologia. Ali, às margens do rio Neckar, ao ladoda Torre de Hoelderlin, morreu Ernst Bloch, a 4 de agostode 1977.

Emsua longa existência e peregrinação, Ernst Bloch desenvolveuuma imensa cultura múltipla, enciclopédica, que logo se faznotar em seus escritos. Sua filosofia da música impressionapela erudição, assim como toda a história da filosofia, dodireito, das artes, enfim, toda a história da civilização,da cultura, do espírito humano encontra lugar em sua reflexão,sobretudo a história das utopias, que são analisadas nosseus mais diversos aspectos – utopias literárias e filosóficas,mas também geográficas, arquitetônicas, religiosas, médicas.

Agrande enciclopédica filosófica das utopias desenvolvidapela obra blochiana dá testemunho da abundante informaçãoe profundo conhecimento do filósofo de tudo aquilo que podemoschamar de margens da história do espírito, quais sejam:os pensadores renascentistas; as tendências esotéricas dagnose e da mística alemã; os mitos astrais, a apocalíptica,a maçonaria, a alquimia; as seitas cristãs consideradas heréticase, na tradição judaica, o hassidismo, o messianismo, a cabala...enfim, de tudo aquilo que move o espírito humano na direçãodo utópico e do novo, mas que se apresenta como que na sombra,ao lado da corrente central da filosofia ocidental, de origeme feição gregas; portanto, à margem das formas mais dominantesda história cristã, com predomínio da influência romana;e no judaísmo, parte importante da sua cultura, também à margemda luminosa tradição racionalista rabínica.

Ogênero em que Bloch escreve é o ensaio, e o ensaio barrocoe expressionista; quer dizer, em seu texto é abundante ouso da metáfora, das imagens, das figuras que funcionam comosímbolos ou formam alegorias, pelo que se pode dizer que é aomesmo tempo conciso e prolixo, e aberto à múltipla interpretação.

Avida de Ernst Bloch dá testemunho de uma concepção de felicidade:suas grandes paixões foram a filosofia e a reflexão, sobrea arte e a história, também a história das ciências, do direito,e a história das religiões. Humanista e socialista, termosque identificam dois modos de ser e pensar hoje postos emquestão, Bloch manteve fidelidade aos ideais morais e humanosde sua juventude, sem aderir ao ativismo político. À obediênciaao Estado, preferiu a desobediência do lado do pacifismo;ao alinhamento ao partido, preferiu a liberdade de pensamentoe expressão.

Paraseguir seus ideais - ou, poderíamos talvez dizer, tambémseus sentimentos e paixões, foi forçado muitas vezes a exilar-see migrar, o que tornou a fazer até a idade de 76 anos, quandochegou a Tübingen, à qual seu nome ficaria associado, sendo àsvezes chamado de o mago de Tübingen, não só pelo teor deseus assuntos prediletos e teses sobre os aspectos ocultosda história do espírito, como também pela célebre magia dasua palavra, exercida com arte, tanto a oral como a escrita.

OLUGAR DA FELICIDADE

Ostextos múltiplos, nas obras completas, mostram o desenhogeral de uma concepção que atribui um lugar próprio à felicidade – opaís do sonho e da utopia: a Schlarafenland, o Paysde Cocagne, os Chateaux en Espagne, a nossa Pasárgada deManuel Bandeira, o País das maravilhas.

Afelicidade se encontra naquele mundo sonhado, que se podeantever através da vitrine de Natal, que é buscado pela concretaluta socialista, e que já é realizado, ainda que de modofragmentário, pelas grandes obras de arte, tais como as sinfoniasde Beethoven.

Aantropologia filosófica contida nos textos de Bloch, talcomo já se pode depreender de uma leitura geral, afirma umaconcepção do ser humano como ser de pulsões, que pressionamna direção de sua satisfação. Ao humano não é negado o movimentoe a brecha da liberdade, tal como o fazem os determinismos,biológico-naturais ou econômico-sociais, mas também não é negadonem esquecido o elo íntimo, no ser humano, do espírito coma matéria, a vida, a carne, base que comanda a aparição dapulsão, do instinto, do desejo, da aspiração, da fome. Sãodiversas as fomes humanas e Bloch não esquece de tematizaras do corpo como as do afeto, as do conhecimento como asdo espírito. Tais fomes múltiplas, que se apresentam em tãovários níveis e ante objetos de substância tão diversa, mostramas reais carências dos seres humanos, sendo estas carênciassintomas de suas possibilidades ainda não realizadas.

Aspossibilidades humanas, dimensões do humano ainda não bemrealizadas, apresentam-se e antecipam-se nos sonhos acordados,sonhos diurnos, dos que Bloch desenvolve ampla fenomenologia,assim como os sonhos noturnos são interpretados pelas diversasescolas da psicanálise.

Aciência aplicada à medicina busca a superação da dor, dadoença, mesmo da morte, assim como dos limites naturais dagenética. Inúmeras questões novas e desafios nos são colocadospara a reflexão ética em nosso tempo, justamente por causados avanços realizados pela ciência genética e pela medicina,que transformam, hoje, em realidade, os sonhos acordadosdos cientistas de ainda há pouco. O que hoje é possível emesmo o que hoje é real seriam considerados utópicos, comoimpossíveis, com certeza, no século XVIII e em grande partedo século XIX, mas talvez também na primeira parte do séculoXX ou mesmo em todo ele, entre o comum dos mortais que nãoacompanha de perto a evolução dos conhecimentos científicos.O desejo de controlar a dor, a doença, a morte, melhorandoa qualidade geral e alongando a expectativa de vida continuama animar o progresso das ciências que apoiam a medicina e é decausar espanto a transformação, neste último século, da potênciautópica em realidades ou potencialidades à beira da realização.

Aarquitetura dá veemente testemunho de ir em busca da realizaçãoda utopia, ou seja, do sonho humano da criação do espaçoideal para a felicidade e a representação da dignidade davida humana. Este mesmo impulso humano se mostra no esforçopara superar fronteiras, do que Bloch chama de utopias geográficas,que inspiraram as grandes navegações do tempo do Renascimento,alimentadas pelo sonho do Eldorado, e também leva hoje à pesquisaespacial.

Aliteratura, por sua vez, registra de modo muito especialas imaginações de um modo de vida social sem desigualdades,pela ordem ou na liberdade. A história literária das utopias,sobretudo na modernidade, é uma história rica e nada inócua,cheia de criatividade positiva, que tem ligação muito estreitacom a realidade moderna, posta em contínuo movimento, atrásda realização da utópica idéia de progresso, com o que estecontém de processo de mudança, avanço científico-tecnológico,mas também de promessa de mais felicidade.

Aciência aplicada à técnica moderna busca superar os limitesque prendem o homem ao trabalho penoso, à falta de tempopara o descanso, à lentidão da viagem, ao chão da terra. Eos movimentos sociais na modernidade buscam igualdade, fraternidade,liberdade, quer dizer, maior justiça nas relações humanas,condição para a felicidade.

Oimpulso de ser-mais, melhor e mais feliz, já aparece no cotidiano,manifestando-se no detalhe da vestimenta, do enfeite, damaquiagem, assim como se expressa e fala mais alto na fantasiaque quebra o comum e cotidiano, no picadeiro, no palco, nocarnaval. Nas artes, sobretudo, na música, mostra-se esseconteúdo da utopia, carregado da substância da felicidade,como uma realidade, embora fragmentária.

Ditoisto, é evidente que estamos lidando com um conceito suigeneris de utopia, o qual precisamos considerar com cuidado.[2] Neste universo conceitual, os sonhos acordados,diurnos, não se identificam ao impossível; os sonhos diurnos,coletivos, das assim chamadas utopias, em vez do impossível,como o conceito vulgar quereria afirmar, indicam o possívelembutido no real, sendo que cada tempo possui a sua utopiaconcreta, que está por ser realizada, à beira de tornar-serealidade.

ParaErnst Bloch – cuja idade adulta e ativa cobre o período de 1907 a 1977 -, a utopia concreta era o socialismo, a lutade emancipação socialista, pela afirmação de novos direitose a conquista de novas condições humanas de igualdade, dignidade,felicidade.

Afelicidade individual, de caráter individualista, é ideológica,enganosa e precária; já a busca da felicidade coletiva, decaráter altruista, é também utópica mas, em outro sentido,verdadeira e real: verdadeira e digna, digamos, moralmente,porque altruista, e também verdadeira porque, sendo expressãocoletiva, indica, de modo concreto - digamos, politicamente,a possibilidade real.

É óbvioque a felicidade não se encontra por todo lado ao nosso redor.E durante a segunda guerra mundial, enquanto escrevia suagrande obra-prima, O Princípio Esperança, Ernst Blochtinha muitos motivos para reconhecer a insuficiência e ainfelicidade do presente, ao qual se referia, com forte cargade crítica ao mundo dirigido em função do capital, como ao momentoobscuro do presente, o que podemos bem intuir, sendo queas tragédias daquele tempo ainda são fantasmas vivos na consciênciae nas obras culturais do mundo de hoje.

Afelicidade, da superação das fomes humanas, inclusive, dorespeito aos direitos humanos, que correspondem à idéia dadignidade humana, atualmente é esperança. Mas não é meraesperança, como algo que se posterga indefinidamente e devaser classificado entre as ilusões ou, quem sabe mesmo, entreas superstições da humanidade. É esperança fundada na realidade,porque o desenvolvimento científico e técnico e a capacidadede produção dos homens já tornou este sonho apto a tornar-serealidade, só sendo necessária a conjunção das condiçõesobjetivas com as subjetivas, ou seja, de um lado, a superaçãoda estultície culpada, quer dizer, superação dos enganose desvios políticos e morais, da decisão humana e da liberdade,em outros termos, para que a felicidade coletiva comece atornar-se realidade, o desenvolvimento necessário é o quese situa no plano da vontade política.

Deum lado, a felicidade anima a esperança; de outro, a esperança é afelicidade presente possível e, por trás dela, há uma promessareligiosa, a felicidade é uma promessa. (Alguém já disseque Ernst Bloch teve a intenção de construir um sistema filosóficocorrespondente ao messianismo...)

Afelicidade pela Arte antecipa a promessa. A utopia se realizano presente, embora de modo fragmentário, através da arte.A arte de predileção no pensamento e no gosto do filósofo é amúsica. Certos trechos de música, de suma elevação espiritual – noentanto, de realidade enraizada no mais material, nos permitemantecipar, de certo modo, degustar antecipadamente a utopia,ou seja, a felicidade prometida.

Osdois grandes modelos, arquétipos, de toda obra de arte humana,se manifestam de modo especial na arquitetura: aquele daforma do cristal, que inspiraria as pirâmides do Egito, eo daárvore da vida, que se mostra tão fecundo, efervescente,florescente, flamejante(flamboyant), nas catedraisgóticas da Idade Média européia.

Sobrea visão de Ernst Bloch sobre a felicidade, são expressivosos fragmentos do Princípio Esperança sobre o humor [3] e sobre o lazer. [4] Emestilo barroco e expressionista, próprio do autor, o textosobre o humor medita sobre o que é vasado pelo humor, peloqual o ser humano supera, já, aqui e agora, a infelicidade.O humor, a mais discreta de todas as utopias,[5] é a infiltração da felicidadeno momento obscuro do presente...

Quantoaos lazeres, Bloch distingue entre os preparados pelo sistema,capitalista e comercial, que mantêm a inconsciência e a submissão,e os que realmente podem desenvolver nos homens aquele melhor,apenas intuído, que eles podem ser... É este mundo melhorque se intui ao ouvir a 6a sinfonia, a Pastoral,de Beethoven. Na audição da sinfonia Pastoral, completa-sea realização da síntese da natureza humanizada bem comodo homem naturalizado e, assim, somos enviados de voltapara a Arte como único caminho atual para a felicidade.

-Suzana Guerra Albornoz é professora do Departamento de CiênciasHumanas da UNISC/ Universidade de Santa Cruz do Sul.(RS).


Indicações bibliográficas:

BLOCH, Ernst: Das Prinzip Hoffnung. Frankfurt: Suhrkamp, 1959. Le Principe Espérance. Paris: Gallimard , vol. I,1976;vol. II, 1982; vol. III, 1991.
ALBORNOZ,Suzana. Ética e Utopia. Porto Alegre: Movimento, 1985.
______________.Oenigma da esperança. Petrópolis: Vozes, 1999.
______________.Oexemplo de Antígona. Porto Alegre: Movimento, 1999.
_____________. Violênciaou não-violência. Sta Cruz do Sul: Edunisc, 2000.
FURTER,Pierre. Dialética da esperança. Rio de Janeiro: Paze Terra, 1974.
MÜNSTER,Arno. Filosofia da práxis e utopia concreta. São Paulo:Unesp, 1993.
______________. Utopia, messianismo e apocalipse nas primeiras obras de Ernst Bloch. SãoPaulo: Unesp, 1997.


[1] Este texto corresponde a exposição feita em 1.12.2000, no contexto de um curso de extensão universitária coordenadopelo DCH/Departamento de Ciências Humanas da UNISC/Universidadede Santa Cruz do Sul e denominado Filosofia e Felicidade, cujoconteúdo está sendo preparado para publicação pela EdUNISC.Portanto, é ao mesmo tempo uma lembrança e uma antecipação,de parte de uma obra coletiva.

[2] Para aprofundar este conceito, remeto a meus trabalhosanteriores: Ética e Utopia (1985); O Enigma daEsperança (1999); O Exemplo de Antígona (1999); Violênciaou não-violência (2000).

[3] Fragmento: Leveza na profundidade, alegria daluz. In: Das Prinzip Hoffnung: 1959, Cap.41,p.1031. Le Principe Espérance,: 1982, p.518.

[4] Fragmento: O ambiente dos lazeres, o ‘buen retiro’ utópicoe a pastoral. In: P.H.: 1959, Cap. 42, p.1039. P.E.: 1982,p.525.

[5] Suhrkamp, p.1034; Gallimard, p.521.