O encanto da maria-mole (crônica) Imprimir
Escrito por Maria Helena   
Seg, 17 de Dezembro de 2012 10:34

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Há muitos anos, em um dia como outro qualquer para uma senhora na rotina de lida diária numa casa na linha divisória, é repentinamente interrompido por três toques secos da mão de bronze na porta da frente. Corre para atender, abre a porta e... Surpresa! Era um enorme arranjo de flores amarelas do campo tapando o rosto de um rapaz, bem ao gosto dela. – Que estranho moço! – Exclamara curiosa. – Quem além do meu marido, me presentearia no dia do meu aniversário com estas flores preferidas, oro del sol? O rapaz surpreso meio sem jeito responde: – Não sei senhora. Olhe o cartão aí dentro! Ela, com a voz meio embargada lê rapidamente: – Mas isso não é possível? Ele faleceu há dez meses! – Ora senhora... Eu só faço o que me mandam. – Pois fique sabendo que vou agora mesmo lá no florista saber quem é que fez esta brincadeira de mau gosto.

Abandona seus afazeres e corre para a floricultura. Chegando lá, mais uma surpresa. O dono, já a aguardava. – Pois é minha senhora... O seu esposo já acertou tudo em vida comigo... O combinado foi para eu colher suas flores preferidas no mesmo caminho que ele e a senhora usavam, era donde ele costumava apanhá-las para a senhora nesta época, ao irem para a fazenda. Lembro como se fora hoje, senhora, recomendou-me muito bem, para que eu não esquecesse de mandar-lhe no dia do seu aniversário.

Ela sob forte comoção volta apressadamente para casa, e com as mãos tremendo de nervosa, abre o envelope rasgando o cartão do buquê sem querer. Mal conseguira ler novamente àquelas linhas devidos os olhos estarem ensopados de lágrimas. Dizia o cartão: “Feliz aniversário querida! Sei que estás surpresa, mas não tanto quanto eu com esta doença maldita que me arrancou violentamente da tua vida. Se não encontraste explicação para estas flores, por favor me perdoe, tenha a certeza de que é com a fé em Deus de que nunca estaremos sozinhos, que encontrei conforto para o meu destino”.

Naquele instante, ao apertar as maria-moles no peito, sentira o perfume das flores nas carretas enfileiradas na frente da casa da fazenda, iam da porteira, onde tinha uma gruta com a imagem da Santa Ana, até o portão da casa. Enfim, sua mente era de slides vivos de tempos felizes em que ele aparecia, quando mandava apanhar estas flores do ano só para agradá-la. Logo, com a emoção mais controlada pelo sentimento de saudade daquele amor intenso que a sufocara, deixara ali, naquele momento tão ardente de saudade, os raios brilhantes do sol atravessar aquelas flores para aquecer-lhe a alma. Era uma manhã de cegar a vida cotidiana, para só depois, então, poder ler o restante da mensagem no outro lado do cartão, escrito assim: “No momento em que escrevo esta, na mais completa solidão, não consigo nem rezar porque minha alma desconsolada pelo meu silêncio pensa que talvez me faltasse coragem para escutá-la ou talvez receie de levar uns pedidos a Deus. Temo que ele não tivesse tempo para preocupar-se com meus caprichos e, em sendo assim, eu deveria ter tido mais seiva de angico para esses passos sozinhos e incertos, pois as decepções, as derrotas e o desânimo que Deus me mostrou foram para eu valorizar as estradas de almofadas de ouro a caminho da nossa casa. Nunca desista da tua vida meu amor, pois foi através do perfume dos campos floridos das nossas maria-moles que vivemos os melhores momentos da nossa existência. Foram como uma candura do poema dos poemas: Teu sorriso, por cada braçada de flores em que eu te presenteava! Adeus, meu amor! Para sempre... Teu!...”

Atravessando a melancolia de tão saudoso amor, ela enxugou as lágrimas com o dorso da mão sussurrando para si como numa oração: – Embora o destino seja cruel comigo, o que mais admirei em ti meu amor, é que tu nunca permitiste que eu sequer desconfiasse do teu sofrimento na solidão da doença. Mesmo partindo... Sempre fez de mim uma mulher feliz. Sempre! Aguarde-me!... Logo-logo estaremos juntos, meu amor!

Dias depois, no balanço de um banco suspenso sob a árvore em que ele costumava embalá-la, ela adormece para sempre.
Carlos Alberto Potoko *

Todo ano, na floração das maria-moles, minha avó me contava uma história, aonde se acreditava que quem viesse a oferecer estas flores a um amor, este se encantaria para sempre pela magia das almofadas de maria-moles amarelas em contraste do ouro do sol. Essa fotossíntese libertaria o amor campesino pela profundidade da composição das cores em contraste com o azul do céu.

* poeta e cronista

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